Águas Claras: A Cidade dos Ratos e dos Cães!

Águas Claras

“Ratos! Ratos! Por onde ando, aonde vou, topo com mil ratos, ratos por todos os cantos, ratos por todos os lados.”

Cuidado! Olhe por onde pisa, porque em Águas Claras, a cidade dos ratos e dos cães, você sempre pode tropeçar num monte de lixo espalhado pelas ruas ou sujar os sapatos com merda de cachorro. Com seu aspecto de uma Sampa do cerrado, Águas Claras fede como a burguesia.

Não é a primeira, nem a segunda vez que topo com enormes camundongos passeando tranquilamente entre a estação do metrô e o caminho de casa. Não importa se é em Arniqueiras ou Concessionárias, lá estão eles, com seus olhos flamejantes de demônios, me perguntando se o dia foi bom, se vou dormir bem…

…E quase sempre nunca tive um dia bom ou vou dormir bem…

Outro dia mesmo, um desses roedores bem grandes, me parou e disse que eu andava com cara de idiota ultimamente, fazendo uma leitura perturbadora do meu coração, decodificando minha alma torturada como se ele fosse um alquimista dos tempos e das coisas inúteis. Sentindo-me Kafka e sua barata, quase lhe ofereci um pedaço de queijo com suco de tomate.

Ratos! Ratos! Por onde ando, aonde vou, topo com mil ratos, ratos por todos os cantos, ratos por todos os lados. Já estou vendo o dia em que lá de cima do nono andar, vou olhar para baixo e ver as ruas tomadas de ratos e caixões, tal qual numa cena de Nosferatu, do Werner Herzog.

Quem sabe eu não me atiro de lá de cima, só para dormir num desses tranquilos paletós de madeira? Quem sabe, eles não comem os restos dos meus pedaços espalhados pela calçada e asfalto? Ratos! Ratos! O Cazuza é quem tinha razão: “minha piscina está cheia de ratos”, mas lá em casa não tem piscina, nem nunca terá…

…E essa dor nas costas que não me deixa dormi…

Iago conspira com Rodrigo contra o Mouro Otelo! Toda a literatura shakespeariana é urdida por tramas palacianas em que ratos querem tomar o lugar dos gatos! Ou vice-versa… “…Diga-me: qual é o palácio onde não se intrometem às vezes coisas fétidas”, ironiza Iago, na peça, Otelo, o Mouro de Veneza.

Seis, sete horas da manhã… Cruzo a estação Águas Claras em direção a minha carona. Pelo caminho, vou andando pelo estreito chão de cimento como se estivesse num tabuleiro de xadrez ou campo minado urbano, desviando das merdas dos cachorros entre um trecho e outro. Porque as desgraças dessas madames arrogantes e esnobeis não catam as próprias merdas que essas bolas de pelos vão deixando por onde passam? Céus, como eu fico incomodado com a indiferença delas com o resto da humanidade, como se fôssemos os dejetos deixados por seus bibelôs de coleiras…

Tem gente que quer vir na próxima encarnação de tudo quanto é jeito. Eu? Bem, eu, não quero nem aparecer aqui…

 * Este texto foi escrito ao som de: Inimigos do Rei (Inimigos do Rei – 1989)

Inimigos do Rei (1989)

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