A Próxima Vítima (1983)

Próxima Vítima

Nesse drama urbano com pegada documental Antônio Fagundes é um jornalista romântico…

Em 1983, Antônio Fagundes estava no auge da carreira. A gatinha Mayara Magri dando os primeiros passos na televisão e no cinema. Nesse drama urbano dirigido por João Batista de Andrade, talvez um de seus melhores trabalhos atrás das câmeras, ela vive a prostituta-ninfeta Luna, uma das potenciais vítimas de um psicopata sexual que anda aterrorizando o submundo da prostituição no bairro do Brás.

O contexto em que toda a trama escrita pelo novelista Lauro César Muniz acontece é sintomático. Com a abertura da política, no apagar das luzes do regime militar, o país vive a euforia das eleições com o povo na rua fazendo campanha para os seus candidatos ao governo de São Paulo. São eles: Jânio Quadros, Tancredo Neves, Franco Montoro, Ulisses Guimarães e um certo… Luís Inácio Lula da Silva.

Repórter novato e ingênuo, David Duarte (Antônio Fagundes) é afastado da cobertura da política, sua paixão, para fazer matérias sensacionalistas policiais. Ele e toda a polícia da cidade estão atrás do maníaco sexual que anda aterrorizando as prostitutas do bairro do Brás. Uma delas Luna, por quem David irá se apaixonar perdidamente.

Thriller policial envolvente, A Próxima Vítima (1983) dá uma chacoalhada no espectador pela atualidade dos temas. A impressão que temos é que nada mudou na política brasileira e que os problemas sociais só aumentaram. “Você acha que empresário latifundiário vai ficar do lado do povo?”, desabafa o personagem de Fagundes, o típico jornalista romântico. “Não posso criar uma imprensa só para os seus sonhos, David”, reclama o chefe de redação.

Duas questões são abordadas de forma contundente no filme. O papel oportunista e sensacionalista da imprensa, que abre mão da veracidade em prol de um jornalismo rasteiro, e o uso político da polícia para omitir ações mais eficientes da corporação nas ruas. A truculência e a criação de factoides são apenas resquícios da ditadura e a imagem do temido delegado Fleury na parede de uma repartição pública da justiça é tristemente dramático.

Documentarista de mão cheia, responsável por inovar no gênero com o chamado cinema de rua a partir de suas experiências em filmes-reportagens para televisão, João Batista de Andrade faz aqui uma bela junção entre a dramaturgia e documentarista. Escancara a fragilidade de um sistema corrupto e falho ao expor o drama do submundo da prostituição e a marginalização dos negros na sociedade.

“A verdade é que você é o branco. O outro é o negro, o bandido”, lamenta o irmão de uma vítima acusada inocentemente.

* Este texto foi escrito ao som de: Velas (Rita Ribeiro – 1997)

Rita Ribeiro - Velas

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