A Festa de Babette (1987)

 

Babette

Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, esse drama dosa com delícia e charme um dos prazeres humanos

O cinema já realizou grandes filmes tendo a comida como coadjuvante ou até mesmo como prato principal. Só para não deixarmos esquecer de que comer é um dos grandes prazeres da humanidade junto com o sexo. E aqui nesse filme dinamarquês de Gabriel Axel, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 1987, o dom de fazer pratos deliciosos é comparado ao da arte com o efeito quase metafísico de engrandecer a alma.

Exibido outro dia no Telecine Cult, assisti só pra me sentir mais próximo daquela gatinha faceira com cara de raposa que tem o prazer, não de alimentar a minha alma, mas apimentar meu coração com momentos infelizes. É a única forma de estar perto dela sem ter os meus sentimentos negligenciados.

A história é adaptada de um conto da escritora Isak Dinesen (1885 – 1962), pseudônimo de Karen Blixen e se passa no século 19, numa distante comunidade dinamarquesa esquecida por deus. É ali que um pastor conservador e suas duas filhas, Martina e Philippa, domam os moradores do lugar com preceitos religiosos conservadores, defendo a ideia de que a alma só alcançará a salvação se renunciar aos prazeres do corpo. Bobagem maior impossível.

De beleza angelical, as duas moças são o terror de corações aventureiros que nunca terão a chance de casar com um delas. “Elas são minhas mão esquerda e direita”, exagera o ministro do senhor, quando alguém lhe pede a mão das gurias em casamento.

Mas o tempo passa, o velho morrer e a velhice também chega para as duas belas jovens que agora são duas senhoras que, num belo dia, se vê obrigadas a empregar a francesa Babette (Stéphane Audran). Ela acaba de chegar da Europa, fugindo da guerra que matou sua família e está disposta a construir uma nova vida, se a oportunidade lhe sorrir.“Meu único vínculo com a França é um bilhete de loteria”, desabafa.

Pois bem. No centenário de comemoração do velho pastor, Babette, talvez por gratidão, oferece à suas duas protetoras e a toda a comunidade, um jantar francês pago com o dinheiro que ganhou da loteria. É quando a moral da história se desmancha num suntuoso banquete que traz escondido no sabor de cada deliciosa iguaria apresentada aos convidados num doce sabor da vingança.

“Era uma chef que tinha o dom de transformar um jantar em um tipo de caso de amor numa relação de paixão no qual não distingue o apetite físico do espiritual”, diz enfeitiçado de prazer um general que participou, mesmo que indiretamente, do massacre da família de Babette.

“Um grande artista nunca é pobre”, diz ela, depois de torrar os 10 mil francos nessa jantar especial.

Simples, mas marcante, A Festa de Babette, é daqueles dramas afetivos que serão lembrados para sempre pela singeleza com que aborda temas universais. A história aqui não é apenas sobre comida, mas de sua relação com fraquezas humanas mundanas como a mentira da religião, a vaidade, a ganância, o egoísmo e a ignorância.

* Este texto foi escrito ao som de: In a Silent Way (Miles Davis – 1969)

In a Silent Way - Miles Davis

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