Paraíba – Vida e Morte de um Bandido (1966)

Jece Valadão 3

Jece Valadão (dir.) tocando o terror na sociedade carioca dos anos 60 como um marginal bom de briga e de fuga

O cineasta, roteirista e produtor Victor Lima (1920 – 1981) dirigiu grandes nomes do humor brasileiro no cinema. Foi de Ankito a Mazzaropi, passando por Costinha e Golias, sem falar dos trapalhões Renato Aragão e Dedé Santana. Sua parceria com o eterno machão das telonas, Jece Valadão, nesse thriller de suspense e aventura rodado em 1966, no entanto, foi uma grande surpresa.

Baseado em fatos reais, filme conta trajetória do bandido Paraíba (Valadão), terror da sociedade carioca que realizou inúmeros assaltos e assassinatos, ridicularizando autoridades de seu tempo por meio de fugas cinematográficas. É o que mostra a fita, que conta com participações de Jardel Filho e Ítalo Rossi. O primeiro, na pele de um jornalista só interessado na história do bandido. O segundo, o padre responsável por saldar sua dívida com o divino.

“Tenho medo de morrer, Padre”, confessa, antes de se lembrar de seu passado de crimes e morrer.

Diferente de outros trabalhos do diretor, que se deixou lambuzar pela chanchada nacional dos anos 50, esse filme tem uma pegada “cinemanovista” impressionante para o estilo de Victor Lima, trazendo premissas sociais nas entrelinhas da narrativa.  Quando o jornalista tenta desenterrar uma consciência desse personagem, ele logo se esquiva. “Eu nem sei o que é isso”, desconversa. “A fome nos obriga a fazer coisa que não deve”, diz, justificando a vida errante.

Alguns pontos da fala do personagem título são impressionantes, se traçarmos um paralelo com a épica canção de Renato Russo, Faroeste Caboblo, quando ele, tal qual João de Santo Cristo, confessa que roubava o dinheiro da caixinha do altar. “Meu pai ia pra igreja todo domingo, o sonho da minha mãe era que eu fosse padre”, confessa.

Além de Jardel Filho e Ítalo Rossi, outros grandes nomes do cinema e da televisão brasileira despontariam com participações importantes no enredo. Milton Gonçalves, por exemplo, é o comparsa fiel que se deixa trair pelo rancor de uma mulher ressentida. Wilson Grey, um gago diligente, e Darlene Glória no papel de femme fatale sensual rainha do crime que enfeitiça Paraíba pela beleza e uma vida de luxo.

“Que foi? Decepcionou?”, debocha, ela, ao se exibir nua na banheira de sua mansão.

O realismo da trama é visceral, ainda mais quando Victor Lima resgata um amistoso entre Brasil e a antiga U.R.S.S., jogado um ano antes do lançamento da fita, servindo de pano de fundo para o grande assalto da trama. O desfecho desse plano audacioso? O convite é assistir a esse clássico no Canal Brasil.

 * Este texto foi escrito ao som de: Avôhai (Zé Ramalho – 1977)

Zé Ramalho

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s