Madeleines Sonoras

Lembranças sonoras

Canções também podem se transformar em madeleines sonoras, nos transportando no tempo por meio de boas lembranças, saudades e sensações afetivas…

Ainda não tive tempo de ler Marcel Proust. Mas graças ao Nelson Rodrigues, que o citava sistematicamente, guardo com carinho no peito uma das imagens mais fabulosas já criadas sobre memória, saudade e sensações afetivas abstratas ou não. É aquela em que o autor de Em Busca do Tempo Perdido faz o personagem de sua trama sentimental mordiscar uma Madeleine e mergulhar, levando o leitor junto, a uma grande aventura literária.

Canções também podem ser transformar em madeleines sonoras, como bem me chamou atenção, outro dia, num rápido bate-papo via face, meu elegante amigo Gustavo Falleiros. Falávamos sobre o Lou Reed e ele se lembrou de que o chocante eterno líder do Velvet Underground foi o responsável por sua conversão ao rock. Uau!! Revelação mais do que surpreendente para qualquer fã do gênero musical.

Ainda mais que esse segredo delicioso veio embrulhado numa sequência de lembranças afetivas formidáveis, quando ele emendou dizendo que tudo por “culpa” de uma programação infernal da Rádio Nacional, que reproduzia na íntegra, a lista dos melhores discos de rock de todos os tempos até então. “Foi a primeira vez que ouvi Venus in Furs”, confidenciou, referindo-se à lasciva canção do disco de estreia da banda nova-iorquina.

Daí, num piscar de olhos, meu chapa, eu viajei no passado e me lembrei dos meus tempos de adolescente, quando passava tardes inteiras, hipnotizado, ao som da Rádio Executiva FM, de Goiânia, me exilando do auge da música sertaneja. O mundo lá fora era só Zezé Di Camargo e Luciano, Leandro e Leonardo, e eu me protegendo com o escudo musical do melhor da MPB e do Rock ‘n’ Roll.

 Tempos de grandes descobertas sonoras. Certo dia, enquanto um crepúsculo deslumbrante riscava o céu lá fora, num fim de tarde frio e triste, enquanto eu estava deitado no chão da sala, curtindo minha solidão de Robinson Crusoé, fui pego de surpresa por uma canção folk meio medieval com arranjo de cordas eletrizantes cantada por um sujeito de voz melíflua…

… Era o Mick Jagger cantando “As Tears Go By” e, desde então, diga o que quiserem, essa é a minha música predileta dos Stones…

… Bem, todas às vezes que escuto God Only Knows, dos Beach Boys, tenho a sensação de falar com Deus numa igreja vazia iluminada por vitrais espectrais… E sempre que ouço Coldplay, me lembro daquela garota de sorriso mágico que não consigo tirar da cabeça, dia e noite, como se ela fosse uma gostosa febre terça…

Mas voltando ao Lou Reed, hoje à noite, escutando aqui Pale Blue Eyes do Velvet, com aquela voz suja e sensual do cantor, me veio à cabeça o rosto delicado e angelical dela, cheio de pintas e com aquela boca com o risco mais lindo do mundo, como se ele tivesse sido feito pelo dedo de Deus… Ok, eu sei, ela não tem pálidos olhos azuis, mas tem o par de olhos castanhos mais deslumbrantes que já vi, com uma doçura de Capitu que faz meu coração afogar numa gostosa ressaca…

* Este texto foi escrito ao som de: Pet Sounds (Beach Boys – 1966)

Pet Sounds

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