A Língua em Pedaços

Língua em Pedaços 2

Texto do século 16 do espanhol Juan Mayorga traz o embate de ideias entre a Santa Igreja e uma freira com uma abordagem diferente sobre a relação com Deus…

A íntima relação do ser humano com Deus por meio dos “olhos da alma”. Esse é o mote do poderoso texto do espetáculo A Língua em Pedaços, em cartaz a partir de hoje no Centro Cultural Banco do Brasil. Encenada pelos atores Ana Cecília Costa e Joca Andreazza, sob a direção de Elias Andreato, a montagem, baseada em texto secular de Juan Mayorga, se apoia na força da palavra para debater temas com fé e a ligação espiritual entre o abstrato e o ser.

“Trabalhar a minha alma é o que resume a minha vida”, dizia a religiosa Teresa D’ Ávila, uma das fundadoras da Ordem Carmelita na Espanha, no século 16, perseguida pela Santa Inquisição por conta de suas ideias avançadas sobre o conceito do divino e de suas orações mentais com Ele.

É o velho embate entre os poderosos da Igreja que detinha o poder de julgar e condenar, na época da Idade Média, contra os subversivos de pensamentos. Teresa D’Ávila era uma ameaça à Santa Igreja por conta de suas ideias modernas sobre a relação com Deus. Nas entrelinhas temas ainda pertinentes nos dias de hoje como o machismo, a hipocrisia e os preconceitos  na Igreja Católica.

“Entre panelas anda o Senhor”, era uma de suas anotações que incomodava os religiosos. “A imaginação é a louca da casa”, comentava em outros rabiscos.

O cenário franciscano conduzido por cores pastel e vermelho traduz de forma simples os conflitos entre os dois pensamentos, a tragédia da dúvida em tempos de guerra. Mesmo que embates no campo das ideias. “Não existe mal maior do que o mal entre os religiosos”, diz indignado o autoritário representante da Igreja. “Tudo é nada. O mundo é apenas vaidade” se defendia a religiosa.

A peça me fez lembrar um texto do Dias Gomes que li ainda nos meus tempos de secundaristas chamado, O Santo Inquérito, que era uma metáfora sobre as barbáries da Ditadura Militar. Enxuto e direto, o texto de Juan Mayorga é uma alegoria, como bem frisou a atriz Ana Cecília Costa, ao final da peça, de “luz e coragem” para esse momento sombrio em que passa o país.

* Este texto foi escrito ao som de: Lou Reed (1972)

Lou Reed

 

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