A Moon Shaped Pool – Radiohead

Thom Yorke

Thom Yorke no clipe da faixa “Daydreaming”, um dos trabalhos do novo álbum da banda pós um hiato de cinco anos

Acho que desde Amnesiac (2001) que não ouço canções do Radiohead tão tocantes. Talvez por isso que na minha cabeça as músicas do álbum A Moon Shaped Pool (2016) – o novo trabalho da banda britânica -, tenha batido tão forte nesses últimos dias. Os dois registros, guardados as devidas distâncias do tempo, dialogam tematicamente. A tão conhecida sonoridade melancólica do vocalista e letrista Tom York mais uma vez ditam o norte das 11 faixas.

A capa enigmática, com sua brancura ofuscante metálica já é um aviso do que o ouvinte pode esperar dentro dessa embalagem sonora. Afinal, o que seria essa tal piscina em formato de lua?

De longe a melhor faixa do disco é a pinkfloydiana The Numbers, com os conhecidos vocais angustiantes de Yorke amparados por arranjos de cordas imponentes escritos pelo guitarrista Jonny Greenwood. Um violão felpudo e nervoso ao fundo faz o ouvinte sentir cócegas nos lugares mais sombrios da mente. “O futuro está dentro de nós/Não em outro lugar”, se desespera o cantor para arrematar no final raivoso. “Nós vamos pegar de volta o que é nosso/Um dia de cada vez.”

Já na faixa de abertura Burn The Witch, reverberam ecos de Kid A (2000) e Amnesiac. O clipe bonitinho da música construído todo em stop motion, contrasta com o discurso pessimista da letra. “Fique nas sombras/Aplaudam a forca/Isso é um cerco”, avisa os versos iniciais para explodir no refrão contundente. “Queime a bruxa/Nós sabemos onde você mora”, desespera.

O piano latente de Daydreaming parece te conduzir para o que os franceses chamam de cul-de-sac, ou simplesmente, “beco sem saída”. “Nós estamos apenas felizes por servir você”, diz um dos trechos enigmáticos da canção de uma melancolia cortante.

Outra que flerta com trabalhos do passado é Decks Dark, seguida pelo folk etéreo e metafísico, Desert Island Disk, que traz os versos reflexivos. “Diferentes tipos de amor são possíveis”, ensina. Present Tense é um sambinha bossa nova que só o Radiohead saberia fazer. Dá a impressão de ser chato, mas está longe disso, se mostrando envolvente e inteligente. “Em você eu estou perdido/Em você estou perdido”, diz os versos finais.

Na faixa derradeira, True Love Waits, temos a impressão de ouvir Coldplay, até a voz inconfundível de Tom Yorke entrar em ação e ironizar com ternura nos versos: “E o verdadeiro amor espera/Em sótãos assombrados/E o verdadeiro amor vive/Em pirulitos e batatinhas”, canta para nos deixar com lágrimas nos olhos e ouvidos. “Apenas não vá embora.”

Há coisas chatas nesse novo rebento de uma das bandas do britpop mais influentes como Glass Eyes e Identikit, mas no total sai ganhando os fãs após um hiato de cinco anos. Há bastante tempo que um álbum não me deixava triste de uma maneira tão gostosa.

* Este texto foi escrito ao som de: A Moon Shaped Pool (Radiohead – 2016)

Pool

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