Assassinato em Goiás

Bois

A história da minha família em Goiás começa com uma tragédia ocorrida lá nos distantes anos 60, na região de Corumbá

Levou uma facada antes de chegar à porteira. Estava apeando do cavalo. A lâmina fria o atingiu debaixo do braço esquerdo e ele caiu já agonizando. O irmão correu pra ajuda-lo, mas levou uma paulada que rachou a cabeça. Os dois assassinos fugiram e o tio da minha mãe, Juvenal da Cunha Magalhães, o tio Nai, ficou estirado no chão lutando solitariamente com a morte.

Já fazia um tempo que ele morava lá pelas bandas de Corumbá de Goiás. Quando chegou aqui, vindo do interior de Minas, da pequena Carmo do Paranaíba, não tinha um tostão no bolso. Com muita perseverança, com muito trabalho, foi conquistando as coisas. Quando viu, antes de chegar aos 40 anos, já tinha três fazendas na região. Tinha gado de corte, vaca leiteira e tudo mais.

Para ajudar na dura lida da roça, no dia a dia sofrido do campo, chamou o irmão caçula que despencou lá do leste de Minas com a família. Quando chegaram, minha mãe tinha pouco mais de cinco anos. Por ser a caçula de sete irmãos, era a preferida do querido tio Nai.

O motivo da briga até hoje parece nebuloso e estranho. Ainda mais porque o assassino de tio Nai era o seu primo e vizinho de cerca. O que diz a história oral da família é que tudo começou por conta de uma vaca descadeirada por um boi. Revoltado, tio Júlio, o dono da vaca, montou no cavalo e junto com o filho Sinval, foi tirar satisfação com o rico vizinho.

– Não vamos brigar por causa disso não, Júlio! Não quero contenda na família –  apaziguou o tio Nai. – Minhas vacas leiteiras ficam naquele curral, você podem colher a melhor delas e ainda te dou um dinheiro por fora para cobrir o prejuízo.

Tio Júlio aceitou a proposta e ficou por isso mesmo até à fatídica cena da porteira, com o punhal frio rasgando as costelas de Tio Nai. Estirando no chão, não demorou muito para que sua roupa branca logo parecesse um manto vermelho de sangue. Não correria geral para acudir a vítima, ninguém se preocupou em afastar as crianças. Minha mãe lembra, como se fosse hoje, do sangue jorrando longe pela ferida do corte em esguichos e das mãos dele lanhadas pelos cortes da faca, para impedir novos golpes.

Isso foi há muitos e muitos anos atrás, lá no início da década de 60. A história da minha família em Goiás começa assim… Assim começa a minha história…

* Este texto foi escrito ao som de: Rei do Gado (Tião Carreiro e Pardinho – 1961)

Rei do gado

 

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