O Décimo Homem (2015)

Décimo Homem

O cineasta argentino, Daniel Burman, revisita suas origens judaicas mais uma vez nessa comédia que fala sobre o distanciamento nas relações familiares

O cineasta argentino Daniel Burman tem um toque Woody Alleniano. Muito a ver, claro, com suas origens judaicas, tema recorrente nos filmes que faz, como o recente, O Décimo Homem (2015), em cartaz na cidade. Aqui ele volta ao bairro judeu de sua infância, Once, para contar a história de Usher, um filantropo que, à frente de uma ONG de caridade, ajuda a comunidade local doado remédios, roupas e comida. Daí o fato dele ser chamado de o rei do lugar.

Mas Usher, que existe na vida real, passa a maior parte da trama ao telefone e o espectador só o conhece pela voz. O elo com ele será o filho Ariel (Alan Sabbagh), um economista bem sucedido que vive em Nova York, mas agora vem passar uma temporada com a família em Buenos Aires. O pai quer conhecer sua namorada, mas ela, por motivos profissionais, não vem, e ele não consegue trazer o tal sapato sem velcro, número 46, que o coroa encomendou.

Eis, aí, já nos primeiros minutos do filme, características marcantes do estilo do jovem diretor e roteirista de 42 anos, ou seja, o humor sutil e ironia sofisticada. Ele estica esse olhar cáustico sobre as tradições do seu povo com a personagem classuda de Eva (Juleta Zylberberg), uma judia ortodoxa que, mesmo proibida de falar com judeus comuns como Ariel, ela é a única que sabe do paradeiro de Usher e consegue fazer com que pai e filho entrem em contato.

“Foi muito empolgante conversar com você”, ironiza ele, depois de um bate-papo mímico com a musa proibida de seus desejos.

De volta à sua terra natal apenas para uma curta temporada, Ariel acaba sendo empurrado pelo pai para as obrigações cotidianas da família, o que prolonga sua estadia na Argentina. E aí está o mote do filme, que fala da distância nas relações familiares. A passagem da infância de Ariel lembrando os biscoitos besuntados de doce de leite é proustiana, assim como hilária sua inquietação com relação à tradição em torno do número dez nos rituais cabalísticos judeus.

Uma pena que o humor no cinema brasileiro seja recém de comediantes que estão muito mais interessados em aparecer à reboque de histórias fúteis e vazias, do que mostrar um conteúdo realmente interessante e inteligente. Falta um pouco de humor judeu em nossas telonas.

* Este texto foi escrito ao som de: Legião Urbana (1985)

Legião Urbana (1985)

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