Nise – O Coração da Loucura

Nise

No filme Glória Pires interpreta sem muita convicção, a mulher que revolucionou a psiquiatria no Brasil com seu método humano de tratar doentes mentais

Pode ser algo meio leviano de se dizer, mas, para mim, Glória Pires só é boa atriz na televisão. É o que eu acho e ponto final. No cinema, seu talento não surte efeito nenhum e fui com essa ideia na cabeça assistir “Nise – O Coração da Loucura”. Com direção de Roberto Berliner, o filme é a cinebiografia da psiquiatra brasileira que revolucionou o tratamento aos doentes mentais no Brasil.

A história começa em 1944, no Rio de Janeiro, na ala Engenho de Dentro do Hospital Dom Pedro II. Num ambiente masculino dominado por burocratas insensíveis e machistas que tratam seus pacientes como cobaias utilizando métodos sádicos, ela é uma voz solitária. “Não acredito na cura pela violência”, reclama, ao ver loucos sendo tratados com eletrochoques e instrumentos medievais como picador de gelo.

Inicia-se então uma batalha entre o retrógrado e a vanguarda, mesmo que esse olhar à frente seja um mero Centro de Tratamento Ocupacional que consiste em amenizar a realidade de pessoas sem razão por meio da arte. Um método que pode não resultar na cura, propriamente dita, mas traz (como trouxe) a “revelação do inconsciente”, aqui materializado em trabalhos de grandes artistas esquizofrênicos.

Projeto ambicioso e ousado que rendeu o reconhecimento do conceituado crítico de arte, Mário Pedrosa, além da criação do Museu do Inconsciente, a devoção de Nise da Silveira abriu caminho, mas não cristalizou no Brasil a humanização dos tratamentos de pessoas com problemas mentais. É como o defasado sistema penitenciário brasileiro, que mais prejudica moralmente o detento do que o reabilita.

Diretor de documentários respeitados – dos quais se destaca “A Pessoa é Para o Que Nasce” -, Roberto Berliner faz sua estreia na ficção com tranquila sobriedade. A pegada documental se faz notar pela câmera na mão acompanhando os personagens, como mostra as cenas iniciais, mas estamos diante de uma obra ficcional.

Uma coisa que me incomoda no filme e não é culpa de Berliner, nem da produção, mas do sistema viciado do cinema que é escravo de uma sociedade preconceituosa, é ver bons atores negros em papéis negligenciados. Estou falando de Flávio Bauraqui e Fabrício Boliveira (Faroeste Caboclo). Aqui eles até se encaixam dentro da necessidade da trama, mas duvido que daqui para frente vão fazer filmes como protagonistas que não sejam marginalizados ou estereotipados.

Ah, sim, continuo achando a Glória Pires uma atriz só de televisão…

* Este texto foi escrito ao som de: Espelho Cristalino (Alceu Valença – 1977)

Espelho Cristalino

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