Malone Morre – Samuel Beckett

Beckett.jpg

Para o poeta Paulo Leminski, tradutor de alguns textos do escritor e dramaturgo no Brasil, o intelectual irlandês era o arauto da solidão e da incomunicabilidade

Ler Samuel Beckett é, para o bem ou para o mal, uma experiência literária marcante. Depois de se aventurar pelas páginas de um romance ou texto dramaturgo deste irlandês contemporâneo de James Joyce, você passará amá-lo ou odiá-lo. Comigo foi assim, depois de ler Esperando Godot (1952), por exemplo, não fiquei indiferente à sua obra e estilo.

Bem, já disseram que Beckett é um mestre em fazer “alguma coisa com nada”. Assim é em Esperando Godot, onde dois personagens passam o tempo todo à espera do personagem-título que não vem. Nada acontece, ninguém chega e é desse vazio de acontecimentos que é feita a literatura de Beckett, um escritor experimental da linguagem.

“Não há mais a dizer, embora nada tenha sido dito”, disse certa vez o escritor e dramaturgo. “Nada é mais real que nada”, continuou provocando.

Escrito em 1951, Malone Morre parte desse princípio ao contar a história de um senhor de 90 anos se definhando num quarto de asilo, hospital ou de sua própria casa. Sim, porque a escrita enigmática e cheia de duplo sentido de Samuel Beckett nos induz a pensar que pode ser todos esses lugares e nenhum deles também.

Reduzido à podridão de sua existência, Malone se debate em cima da cama na tentativa desesperadora de fazer um movimento mínimo possível, mas tudo que ele consegue fazer é pensar e é deste pensar, norteado por discurso niilista, pragmático e sóbrio, que é construída a narrativa de Beckett, sempre marcada por linguagem experimental.

Tradutor deste texto no Brasil, o anárquico poeta Paulo Leminski teorizou que Beckett usa sua literatura quase inacessível como metáfora da decadência da escrita contemporânea. “Beckett é o poeta da solidão e da incomunicabilidade”, refletiu em texto escrito no posfácio dessa edição lançada pela Editora Códex.

Amigo, admirador e secretário de James Joyce na época em que esse escrevia a revolucionária obra, Finnegans Wake, Samuel Beckett é um intelectual das letras que mete medo no leitor. Mas é um medo necessário, que nos faz despertar de certa letargia das ideias. A partir de suas fábulas do nada, somos convidados a refletir sobre esse mundo sombrio, egoísta e decadente que nos cerca.

Como já dizia o filósofo judeu do pós-guerra, Walter Benjamim. “Toda alegoria é uma ruína da realidade.”

* Este texto foi escrito ao som de: Sessão das 10 (Sociedade da Grâ-Ordem Kavernista – 1971)

Sessão das 10

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s