O demônio do desprezo

Desprezo 2

“A indiferença é a maneira mais polida de desprezar alguém”, Mário Quintana, em um de seus vários momentos de lucidez sobre a natureza humana…

O ser humano é de uma complexidade obtusa e ululante. Uma esfinge de não sei quanto milhões de anos. Outro dia mesmo me pediram para desenhar sobre isso, ou seja, a complexidade humana e, não sei por que, me veio à cabeça aquela equação maluca do Einstein sobre a teoria da relatividade, onde números e letras se confundem numa sopa de alfabetos e cálculos indecifráveis. Eis o que é a natureza humana. Uma mistura de letras e números sem explicações. Deprimente…

Sei disso porque, todos os dias quando me levanto olho no espelho e não entendo nada. Ou melhor, vejo mil fragmentos de mim mesmo, estilhaços de uma vida inteira que poderia ter sido e que não foi… No dia seguinte faço o mesmo exercício e tudo fica cada vez pior, mais confuso e sufocante. Maçante e delirante. Enfim, asfixia da alma e alma asfixiada dá câncer.

E tudo o que eu queria era ir e voltar sem me perder nas confusões em que me meto por causa do amor, do trabalho, da vida, de tudo. Um coração mais leve e uma cabeça serena para deitar num travesseiro de tranquilidade. Um lugar para repousar o meu corpo dormente como se eu estivesse numa outra estação, flutuando entre o vazio e o nada. Utopia? Sim, porque não é fácil ser um sobrevivente de cada dia.

Ser sensível e frágil nessa sociedade cada vez mais egoísta e doente é um suicídio, o mito de Sísifo. E tenho fragilidade de um Charlie Brown segurando o Snoopy. Ou seja, uma folha cai da árvore lá no Japão ou Oceania e pronto, já é o suficiente para me sentir down a estação inteira. Tudo isso pra dizer que não suporto o desprezo em qualquer hipótese. De todos os sentimentos humanos, esse é o mais vil, hediondo e desprezível para mim.

E o desprezo vindo de quem nós admiramos é o maior dos crimes. O pior tipo de desprezo que possa existir é aquele que vem da pessoa que amamos. Maldade humana então deixar tão triste quem tem tanto para dar e nada para receber. Mesmo que esse receber seja apenas um gesto de delicadeza, atenção ou humanismo afetivo. Por vaidade, egoísmo ou autismo ela tem o prazer de me desdenhar. É algo tão automático que ela nem percebe quando faz isso. É como se fosse a coisa mais natural de sua existência.

“A indiferença é a maneira mais polida de desprezar alguém”, filosofou certa vez o poeta Mário Quintana.

Penso assim. Só por que ela é alguém é especial para alguém não quer dizer que tem o direito de sair por aí desprezando as pessoas.

“…Toc, toc, toc, um demônio de soberba e descaso bate em sua porta todos os dias e ele não sabe se defender com sua ingenuidade de um Charlie Brown segurando o Snoopy. Ela está lá, te olhando com aquele sorriso largo e sádico de beldade do seu coração e ele só quer desaparecer, sumir, enfim, ser deletado da existência humana. Morrer até poderia ser uma boa saída, mas ela daria uma gargalhada de Mefisto e zombaria do sofrimento dele num piscar de olhos. Essa atitude é o que ela tem de melhor. Então não derrame suas lágrimas de novela das 8h, meu chapa, porque isso não vai comovê-la…”

Passei o fim de semana lendo e ouvido George Harrison só pra me lembrar dela, ficar mais próxima dela, sentir ela, com seu ela fosse um pedaço de mim e a garota-desprezo foi um totem de indiferença. Agindo como se eu não estive lá. Era como se eu não existisse o tempo todo. “Deixe-me ficar dentro de seu coração”, dizia um trecho da canção do ex-beatle e ela só se afastando com sua atitude mais ignóbil e desdenhosa.

Bem, já me disseram que não passo de um adulto mimado cheio de caprichos no coração. Pode até ser, mas Hitler também era um adulto mimado, não sei se de caprichos no coração, mas deu no que deu… Há um deus da carnificina dentro de mim… Quando ele despertar será pior para mim e para todos aqueles que me cercam

Insônia… Dias de abril desgraçado…

* Este texto foi escrito ao som de: Chet (Chet Baker – 1958)

Chet

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