100 contos inéditos de Nelson Rodrigues

Nelson Rodrigues

A deliciosa Gabriela Duarte numa das histórias do crônica adaptadas para o “Fantástico”

Não leio a Bíblia. Leio Nelson Rodrigues. Acredite, é bem melhor do que o Velho Testamento. E está tudo lá, basta conferir: inveja, ciúme, ambição, traições, desejos desenfreados, perversidades, morte, enfim, bizarrices da natureza humana… Com sua autenticidade nua e crua, o jornalista, dramaturgo e cronista desnudava a alma dos seus pares, destituía a máscara da hipócrita sociedade brasileira de seu tempo.

Nas tramas escritas por Nelson Rodrigues, seus personagens imorais e oportunistas do desejo viviam e trabalhavam na Zona Norte, mas pecavam, sem culpa, na Zona Sul. Mais real impossível. “O pecado é anterior à memória”, gostava de citar.

O palco dessas “indecências mundanas”, A vida como ela é… as crônicas que escreveu, nos anos 50 e 60, quase que diariamente, como que num transe febril, no revolucionário jornal Última Hora de Samuel Wainer. Na biografia O Anjo Pornográfico, Ruy Castro conta que o cronista queria que o espaço se chamasse “Atire a Primeira Pedra”. Fatalista que era o dono do diário montado por Getúlio Vargas foi categórico: “Não, ‘A Vida Como ela é…’”, encerrou o assunto.

Boa parte dessas histórias, cerca de 200, foi publicada por várias editoras ao longo do tempo, mas, para deleite dos fãs de Nelson Rodrigues, uma edição comemorativa de 2012 da Nova Fronteira resgatou 100 crônicas inéditas que agora devoro com o ímpeto e volúpia de um fauno de plantão.

Para a realização do trabalho algumas revelações deliciosas, como o fato de Nelson Rodrigues ter dado o mesmo título para histórias diferentes ou só mudar o título de tramas repetidas. No primeiro caso, talvez por não se lembrar, de fato, dos nomes que deu para suas crias diárias. No segundo, para suprir uma ausência.

Mas nada é mais saboroso do que a revelação de que, durante as pesquisas, foi descoberto que, por conta da popularidade das histórias, algumas páginas das edições de Última Hora que se encontravam na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, se encontravam arrancadas. Era como se o leitor, se identificando com o que leu, quisesse morrer com elas.

O vigarista que mentia sobre a morte da mãe pra conseguir dinheiro, o crime perfeito do marido traído que incentiva o amante da mulher a matar um terceiro aventureiro do amor da adúltera, o sujeito que tinha tara por mulheres negras, mas escondia o fato por medo do preconceito da sociedade, a garota que se deixa apodrecer no porão de casa, depois de uma cirurgia para extirpar os seios.

“Você não está sentindo um cheiro esquisito?”, pergunta dois vizinhos.

Como se vê, “A Vida Como Ela É…”.

* Este texto foi escrito ao som de: Muito (Dentro da estrela azulada) (Caetano Veloso – 1978)

Muito

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