Da Burocracia das Coisas

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A literatura e o cinema já abordaram o tema com propriedade, como mostra essa versão de Orson Welles para o clássico de Franz Kafka

A burocracia é um câncer da sociedade. A “burrocracia” então eu diria que é o câncer elevado ao cubo. Ou uma tragédia do tipo. Mas enfim, por que estou dizendo isso mesmo? Deixa para lá. O importante dizer é que o cinema e a literatura já falaram com propriedade sobre o tema. A referência maior nos livros é o atormentado escritor Franz Kafka, cuja obra, O Processo, virou sinônimo de descaso do poder público com o indefesso cidadão.

Gosto de uma cena do filme do Orson Welles adaptado dessa obra. É aquela em que o personagem do ator Anthony Perkins (Psicose) se vê metido com gavetas enormes, gigantes, completamente, impotente, diante da inércia do Estado. Acho que é isso. Assim como o carimbo virou um símbolo máximo da burocracia, o governo, em todas as suas esferas, também. O Raul Seixas é que estava certo: “Pluct, Plact, Zum, não vai a lugar nenhum”.

Recentemente fui ver a animação Zootopia. É a história de uma coelhinha safa que sonha em ser policial. Ela quer ser Jodie Foster em O Silêncio dos Inocentes. Mas o machismo do sistema a impede de chegar lá. Ou seja, os seus pais, o chefe na corporação, enfim, até uma raposa mala duvidam de sua capacidade de um dia vestir farda e brigar contra as injustiças sociais.

Contudo, a melhor cena do filme fala sobre burocracia, é aquela que mostra uma repartição do “Detran” norte-americano sendo conduzida por um grupo de bicho-preguiças. A melhor piada no que diz respeito a essa sequência está no último minuto do filme. Preste atenção e se deleite.

A burocracia é um bichinho tão infernal e indecente que incomoda, atrapalha até as fantasias do coração. Outro dia mesmo não me contive e, me queimando de desejo, metralhei a garota dos meus sonhos assim:

– Sabe que morro de amores por você, né? Quer fugir comigo?, perguntei, romanticamente pateta.

Sei se abalar, ela burocratizou meus sentimentos com o habitual desdém que pessoas do seu signo têm:

– Não posso, querido, sou casada!

E daí?! Pensei com os meus botões. Deu vontade de dizer aquela piada de botequim infame:

– Não tem problema, não tenho ciúmes…

* Este texto foi escrito ao som de: Different gear, speeding still (Beady Eye – 2011)

Beadyeye-differentgearstillspeeding

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