O Sono Eterno – Raymond Chandler

Raymond Chandler

Raymond Chandler renovou o gênero policial norte-americano na literatura com seu estilo cortante e enxuto

A cena é clássica. Raymond Chandler foi assediado para escrever roteiros em Hollywood e, armado de uma arrogância infantil, não deixou se intimidar pelo glamour do cinema.

– Seiscentos dólares por mês e nem um tostão a menos, disse, irredutível.

Ao que o executivo da Paramount lhe rebateu, tranquilizando-o:

– Senhor Chandler, estamos preparados para pagar-lhe 750 dólares por semana.

Bem, o diálogo nonsense e marrento parece ter saído das páginas de um dos romances policiais do escritor, então um sucesso nas prateleiras e nas páginas de revistas do gênero, mas aconteceu de verdade. Quem gostava de contar o episódio, salivando de cinismo e deboche, era o cineasta Billy Wilder, que na época tentava contratar Chandler para transformar o livro do rival James Cain, Double Indemnity, no seu mais novo projeto nas telas.

Conhecida no Brasil como Pacto de Sangue, essa adaptação seria um marco na carreira do velho Billy, mas a experiência foi traumatizante para Chandler, que passou a odiar o genial diretor implacavelmente. “Trabalhar com Billy Wilder foi um suplício que certamente me encurtou a vida”, desabafou certa vez.

Então um dos mais brilhantes escritores da moderna literatura moderna, Raymond Chandler não precisava se prostituir para a indústria do cinema, mas, como os personagens sujos de suas histórias, foi tentado pelo dinheiro fácil e farto da indústria do cinema. Então cinquentão, já tinha escrito pelo menos três livros marcantes que reinventaram as tramas policiais na literatura. Sua estreia como romancista foi em 1949, com o cortante O Sono Eterno.

E que estreia. Foi ali que surgiria pela primeira vez o detetive particular, Philip Marlowe, um sujeito osso duro de roer a bordo de seu Chrysler velho. O que espanta no livro são os diálogos certeiros como uma rajada de bala e o pragmatismo inabalável do personagem. “Tenho 33 anos, já estive na universidade e ainda sou capaz de falar inglês caso seja necessário. Na minha profissão, isso não acontece muito”, diz, logo nas primeiras páginas da trama.

Aqui ele é contratado pra desmascarar uma turma de chantagistas que infernizam a vida de um velho general doente. E quanto mais ele se chafurda nas descobertas, mas nebulosa a narrativa fica, desnudando aos olhos do leitor o submundo do mercado ilegal da pornografia e da máfia dos jogos de azar.

Com texto ágil, personagens empolgantes e estilo original Raymond Chandler meio que reinventou o gênero policial, se infiltrando na moderna literatura moderna norte-americana. Não à toa que, por conta de sua narrativa enxuta e direta, muitos o comparavam a Ernest Hemingway. O próprio Hemingway o achava brilhante. Precisa dizer mais alguma coisa?

* Este texto foi escrito ao som de: Different gear, still spending (Beady Eye – 2011)

Beady Eye

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