Amor e desamor (1966)

Amor e desamor

Leonardo Villar e Betty Faria se entregam ao amor entre quatro paredes numa mansão do Lago Sul

O cineasta carioca Gerson Tavares tem mais em comum com a capital brasileira do que possa imaginar muitos entendidos do assunto. Sua relação com a cidade começou em 1959 quando, a pedido do governo federal, dirigiu o curta-metragem, Brasília, capital do século. Ali, por mais de 10 minutos, sintetiza as contradições do futuro e passado de uma cidade, à sombra do movimento modernista e do sentimento desenvolvimentista do presidente JK.

Mas com o drama existencialista, Amor e desamor (1966), sua estreia no gênero ficção, essa ligação se intensifica no que ela tem de melhor e pior, a partir da relação conturbada de um casal vivido por Leonardo Villar e Leina Krespi. Ele, arquiteto e professor universitário que acabou de deixar a UnB. Ela, uma mulher casada afim de uma aventura amorosa casual. Ambos com os sentimentos e emoções norteados por suas impressões pessoais da cidade.

“Você não se libertou dos números cabalísticos de Brasília, das siglas”, brinca ela, irônica, ao que ele devolve. “Conheço todos os bares de Brasília, mas não gosto de nenhum”, amarga.

Para quem é da cidade ou nutre um amor incondicional por Brasília, vai vibrar ao ver a nova capital ainda uma criança engatinhando no horizonte do planalto central. A imponente Catedral Metropolitana, com seus traços diferentes, por exemplo, é apenas um esboço na paisagem, mas lugares como o saguão do mítico Hotel Nacional, o Congresso, a Concha Acústica, a Esplanada e Eixo Rodoviário estão presentes em sua totalidade e interferem, de forma estática e silenciosa, na rotina dos personagens.

“Aqui só tem concreto e vidro. Lugar de gente chata”, desabafa Alberto, personagem de Leonardo Villar.

Apesar de seis anos de distância, a referência maior aqui é A Noite, de Michelangelo Antonioni. Ou seja, assim como os personagens da obra-prima do diretor italiano, em Amor e Desamor eles aparecem deslocados, amargurados existencialmente e em busca da felicidade a partir de uma mudança radical não apenas física, mas interior.

Ousado para época, esbanjando sensualidade nas entrelinhas e cheio de malícia nos costumes e comportamento, o filme esboça, meio que inconscientemente, certo olhar preconceituoso para a nova cidade que estava nascendo no coração do Brasil, verbalizando os pensamentos e ideais da época. Ainda bem que o tempo iria fazer justiça à cidade.

* Este texto foi escrito ao som de: Zuma (Neil Young – 1975)

Zuma

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