A noite do meu bem (Ruy Castro)

Ary Barroso

Ary Barroso e Lucio Alves, além de artistas geniais, eternos boêmios da noite carioca com suas boates luxuosas cheias de pecado e recreio…

Nos anos 50, quando as boates eram moda na rotina noturna dos boêmios do Rio de Janeiro, Aracy de Almeida – aquela baixinha invocada e jurada do programa do Sílvio Santos, lembra? – era uma das estrelas dos palcos da noite carioca. Desbocada e talentosa, não precisava rebolar enquanto cantava para mostrar ao que veio. Como ela mesma gostava de dizer, sem a menor falta de modéstia, era aquela sobre quem não restava a menor dúvida.

Pois bem. Nas noites de sexta e sábado, na badalada Vogue, de propriedade do Barão Stuckart, quando tinha que fazer três entradas, a última, já depois das quatro da manhã, ela entregava os pontos, cantava uma ou duas músicas, olhava para a plateia e dava o seu recado:

– Cansei de cantar. Vão tomar no cu!

Sei se abalar, voltava para mesa aplaudidíssima e a vida, como tinha de ser, continuava.

Noutra ocasião, numa das famosas festas do afamado Clube dos Cafajestes, Ary Barroso, convidado cativo da turma, se atrapalha com a maçaneta de uma das portas do lugar. Ao entrar onde não devia, vê um dos integrantes se atracando aos beijos com uma belíssima negra e, com os óculos e o nariz quase nas intimidades da moça, se encanta com o contraste entre a cor da pele e da vagina e, como bom rubro-negro que era, exclama:

– “Ela é Flamengo!”.

Essas duas delícias de histórias fazem parte do livro A noite do meu bem, o mais novo projeto do jornalista e biógrafo, Ruy Castro que, como tudo o que ele se debruçou até hoje, é um sundae. Por isso e só por isso, ele é um dos meus ídolos do jornalismo. Depois de contar a história da Bossa Nova, falar das trajetórias de Nelson Rodrigues e Garrincha, ele revela agora como foi a aurora e o crepúsculo da noite carioca, na quintessência da boemia.

E, ao falar do surgimento das badaladas boates que fizeram a noite do Rio de Janeiro nos anos 40, 50 e 60, Ruy Castro mergulha fundo, de corpo, alma e coração, no universo dos sambas-canções, trazendo à luz o talento, sucesso e carismas de uma fauna de músicos, cantores, jornalistas e titulares da noite na cidade maravilhosa. Gente como Aracy de Almeida, personagem que abre este texto, uma das artistas que mudaria o eixo da música brasileira.

Outras estrelas desse nicho excêntrico formidável? Dick Farney e Lucio Alves. Elizeth Cardoso e Linda Baptista. Lupicinio Rodrigues e os irmãos Carlinhos e Jorginho Guinle. Ary Barroso, Dorival Caymmi, Herivelto Martins…

* Este texto foi escrito ao som de: A divina Elizeth (Elizeth Cardoso – 1990)

Elizeth Cardoso

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s