Um conto de Natal no Ano Novo

Jesus

De como Jesus andou pelas ruas de Brasília e não gostou do viu, sobretudo quando esbarrou com Eduardo Cunha e Renan Calheiros no Congresso Nacional…

As alpercatas de couro hebreu primeiro pisaram a W3 Sul, bem ali na altura da Biblioteca Demonstrativa. E enquanto, na calada da noite, caminhava pelas calçadas fétidas do lugar, como sempre acontecia nessa época do ano, sentia o beijo frio de dezembro açoitar as longas barbas e madeixas de profeta. Gozado, mas ele nunca se acostumou com aquelas reluzentes luzes de Natal espalhadas por toda a cidade. Talvez porque elas dissessem bem menos do que a data queria dizer, ou seja, sobre o nascimento de Jesus, o seu nascimento, o principal personagem da festa, ultimamente, nunca lembrado.

Mesmo assim, como se fosse um ator interpretando Eugene O’Neill, cruzou o manto escuro do céu naquela parte de Brasília numa longa jornada noite adentro, até chegar na Catedral Dom Bosco, com suas ofuscantes paredes de vitrais. Ao se aproximar do santo espaço, avistou um mendigo em farrapos se escondendo do vento gelado à beira da porta da Igreja e sentiu pena do pobre diabo molambento, como se o tivesse visto nas ruas de sua querida terra natal: a Galiléia.

Sentiu mais comiseração ainda das pessoas que saiam da missa noturna ignorando completamente o sujeito sujo e solitário ali jogado nos degraus da catedral, como se ele não fosse nada, como se ali nada existisse, como se fosse algo invisível. E não entendia como essas mesmas pessoas que iam pedir perdão e misericórdia ao seu Pai, fossem capazes de gesto tão desumano e indiferente. Hipócritas e demagogos, eles não sabem o que faz!

Triste, desceu a rua das farmácias e de longe, mirou o Hospital de Base onde, centenas de enfermos padecem, mês a mês, nas garras negligentes do poder público. Onde iam parar o dinheiro dos pesados impostos cobrados por César? Com essa dúvida latejando a cabeça, machucando o peito, passou em frente ao Banco Central, deixou se impressionar com os voos dos skates no cimento do Museu Nacional, até esbarrar com a Catedral de Brasília, aquela riscada por Oscar Niemeyer, o comunista ateu de alma humanista.

Não se conteve e entrou, silenciosamente, na Igreja que tem o formato de duas mãos com dedos entrelaçados, apontados para o céu, como se estivessem em oração. Deixou que a luz translúcida da Lua cheia que brilhava lá fora cruzasse os vitrais desenhados pela artista plástica Marianne Perretti e tocasse o seu rosto tristonho e amargurado. Por um momento, naquele ambiente claro e puro, sentiu paz de espírito, esperança na humanidade, fé nos seus irmãos. Como sabia das coisas esse velho Oscar, pensou!

Sem se esmorecer, seguiu sua caminhada rumo ao Congresso Nacional, passando pelos imponentes prédios dos Ministérios e largas ruas da Esplanada, naquele momento, vazia e silenciosa como o deserto de Israel. Ao entrar no prédio que lembrava uma daquelas construções romanas, sentiu um forte odor de enxofre empertigando o ar. Logo ouviu a gritaria insana de demônios humanos alardeando manobras em benefícios próprios, acusações e zombarias e teve vontade de expulsá-los como fez com os vendilhões do templo, em Jerusalém.

Mirou um dos presidentes da casa e viu a imagem de Satanás naquele semblante cínico norteado por sobrancelhas arqueadas. Era como se já tivesse visto na figura de Eduardo Cunha, a imagem de um imperador romano mimado que não estivesse nem aí para o povo que ali o colocou. Desanimado, cruzou o tapete verde da Câmara e foi parar do outro lado da concha e, ao avistar a sombra nefasta de Renan Calheiros, se lembrou da cena em que Pôncio Pilatos lavou as mãos e selou o seu destino. Naquele momento, lágrimas de sangue rolaram de seu rosto, manchando o carpete azul do Senado. Foi quando, mais uma vez, teve vergonha de ter vindo ao mundo e das pessoas que aqui o seu Pai colocou.

Do alto da cruz que flagelava o seu corpo vilipendiado pela dor, soltou um grande e longo suspiro que transcorreu todo o Planalto Central:

– Perdoais-vos! Eles ainda não sabem o que faz!

* Este texto foi escrito ao som de: Ultimate gospel (Elvis Presley – 2004)

Gospel

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