Incidente em Antares – Érico Veríssimo 2

Incidente em Antares

E quando os mortos de Antares se levantam de seus esquifes o que acontece à pequena cidade que se julga esquecida por Deus?

E os mortos finalmente se levantam em Antares. São sete defuntos que, indignados em seus esquifes, lamentam o fato de não terem sidos levados ainda aos seus sepulcros, quando o dia já vara a madrugada por causa de uma greve. A primeira a se indignar é Quitéria Campolargo, matriarca de uma das duas famílias mais poderosas da cidade fictícia criada pelo escritor gaúcho Érico Veríssimo.

– Pela posição do Cruzeiro do Sul acho que são três horas da madrugada. Como se explica que estamos ainda insepultos e abandonados fora dos muros do cemitério?

Publicado em 1971, o livro marca um novo desafio na carreira do respeitado autor do impactante épico, O tempo e o vento. Se sentido sufocado pela opressão da ditadura militar, Érico Veríssimo recorre ao realismo mágico, gênero literário então bastante em voga na época, para falar das mazelas, imoralidade e arbitrariedade do país tendo como ponto de partida a microscópica Antares. Do micro fala do macro.

Os mortos na obra surgem como um castigo apocalíptico diante da triste realidade que vive o país. Como não são mais personagens da comédia da vida humana, se jogam no infame jogo das verdades, eles soltam os cachorros em cima de tudo e de todos. Interessante e ao mesmo arriscado o contexto em que o autor insere suas criaturas imorais, vivos ou mortos.

O auge do incidente em Antares que faz um dos personagens perguntar se Deus os esqueceu, são os meses que antecederam o Golpe Militar de 1964. Políticos de projeção nacional como João Goulart e Leonel Brizola estavam na crista da onda, tidos como uma ameaça vermelha para a hipócrita, conservadora e direitista sociedade brasileira. A salvação para o caos político o qual a nação está prestes a mergulhar são os militares.

Será? Em meio ao imbróglio político e ideológico, tudo o que os mortos querem é verem suas carcaças debaixo de sete palmos. – Qual o nosso objetivo? O de sermos sepultados dignamente, como é de nosso direito e de hábito, numa sociedade cristã -, reivindica o advogado-defunto, Cícero Branco.

* Este texto foi escrito ao som de: A sétima efervescência (Júpiter Maçã – 1997)

Sétima efervescência

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s