Incidente em Antares – Érico Veríssimo

Incidente em Antares

Quando os mortos levantam de suas tumbas para infernizar os vivos por suas omissões e imoralidades. É o escritor Érico Veríssimo flertando com o realismo mágico

Uma das minisséries da Globo que eu mais gostava, que me marcou, assim, deveras, foi Incidente em Antares, baseada na obra do escritor gaúcho Érico Veríssimo. Causava-me espanto e um esgar de terror aquele aspecto sobrenatural da obra, com defuntos se levantando de suas covas e aterrorizando toda uma cidade. Talvez por isso esse fosse o livro do autor que eu mais ansiava em ler. E é o que eu estou fazendo nesse momento.

Publicado em 1971, a trama teve inspiração numa foto bizarra de revista norte-americana que não saiu da memória do escritor. Mostrava uma greve de coveiros na cidade de Nova York, na qual, dez ou doze cadáveres, aguardavam pelo enterro. Pronto, foi o ponto de partida para que o autor do épico, O tempo e o vento, criasse uma alegoria macabra sobre a política nacional, desde os tempos de Getúlio Vargas, até o golpe Militar de 64.

Ao contrário de outros textos do escritor. O humor aqui flui em abundância. Normal, já que esse estado de espírito sempre foi uma das armas mais eficiente para combater a truculência dos regimes ditatoriais. Dividido em duas partes, o livro apresenta no primeiro tomo os precedentes de uma sociedade marcada pela infâmia, imoralidade e abuso de poder. O que fundamenta a segunda parte da obra, em que o absurdo norteia a narrativa por meio do realismo mágico, um gênero literário então em voga na época.

Bom escritor que era Érico Veríssimo aqui recorrer ao exercício da metalinguagem para impingir ecos de outras histórias suas, reverberando, por exemplo, as disputas políticas familiares e as tramas palacianas pela ótica de seus personagens dos governos que marcaram esse país. Tudo mais do mesmo, mas diferente.

Bem, ainda estou na primeira parte de Incidente em Antares, não deu tempo dos mortos se levantarem, mas já prevejo aqui, baseado na lambança do que li até agora, que os defuntos são bem mais decentes que os vivos.

* Este texto foi escrito ao som de: Várias variáveis (Engenheiros do Hawaii – 1991)

Várias variáveis

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s