Terra estrangeira (1995)

Terra estrangeira

O filme da dupla Walter Salles e Daniela Thomas surge como espécie de efeito colateral dos tenebrosos e escusos anos Collor

Abril despedaçado (2001) ainda é para mim o melhor filme de Walter Salles. Mas quase perdeu esse posto outro dia para o amargo, Terra estrangeira (1995), que vi numa tarde ociosa de domingo. Co-dirigido a quatro mãos com Daniela Thomas, a fita narra a trajetória de personagens desajustados em busca de um rumo na vida depois de perderem o norte. O motivo de estarem andando como se fossem uma bússola sem direção, é o famigerado Plano Collor, que pegou todo mundo de calças nas mãos.

Um deles é o jovem Paco (Fernando Alves Pinto, em sua estreia no cinema). Aos 21 anos, ele acabou de perder a mãe e o pouco dinheiro que a coroa tinha na poupança foi confiscado pela ministra Zélia Cardoso. Desnorteado e à deriva diante do futuro que tinha planejado, se perde entre doses de uísque, até encontrar a figura atraente do português Igor (Luís Melo, impecável na pele de um gangster). Ele o adota com a missão de entregar uma encomenda em Portugal, que um pulo para Paco conhecer San Sebastian (Espanha), terra natal da mãe morta.

Do outro lado do Atlântico, já faz algum tempo que o casal Alex (Fernanda Torres) e Miguel (Alexandre Borges) ganha a vida como podem. Ela como garçonete e ele como músico de jazz  drogado que faz pequenos bicos barganhando contrabando. É nesse contexto de fuga e procura por uma nova vida que esses personagens irão se encontrar.

A belíssima e bem desenhada fotografia em preto e branco de Walter Carvalho realça os tropeços dos personagens na penumbra de seus erros, fazendo de Terra estrangeira uma contundente crônica sobre o desterro de brasileiros que agora fogem não dos horrores da ditadura militar, mas de crise econômica implacável. São jovens sem perspectivas que fazem o caminho inverso dos portugueses que descobriram o Brasil, em busca de uma vida melhor, mas que encontram um cenário nada auspicioso nessa pátria mãe. “Aqui não é lugar para encontrar ninguém. Aliás, e um lugar ideal para perder alguém ou a si próprio”, avisa um músico nativo. (João Lagarto).

Filme noir com pitadas de road movie e crônica social, a fita surge como um sopro de esperança numa época em que o cinema no Brasil, graças ao Collor, assim como esses personagem andavam à deriva. Daí mais do que simbólica a bela e triste imagem da gigantesca carcaça de um navio à beira mar. O final, com sua referência sutil ao clássico de John Huston, O tesouro de Sierra Madre (1948), é exemplar.

 * Este texto foi escrito ao som de: Ramblin’ Jack Elliott (Jack takes the floor – 1958)

Jack

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