A dança dos anônimos

Dança dos famosos

Quem ainda perde tempo vendo “A dança dos famosos”? Pior, quem ainda perde tempo vendo o faustão?

Outro dia uma amiga de uma amiga minha desabou na frente de todo mundo só porque perdeu uma edição da Dança dos famosos, do Domingão do Faustão. Que pena, agora só na próxima semana. Mas quem, raios, ainda assiste à Dança dos famosos? Ou pior! Quem perde tempo vendo e ouvindo o falastrão do Faustão, o apresentador mais chato da televisão brasileira? Triste constatar que milhões de brasileiros que não tem coisa melhor do que fazer como ler um livro ou assistir a um bom filme. Clássico de preferência.

Não trata de esnobismo, mas de praticidade. Como o meu tempo é curto pra fazer as coisas que quero e gosto. Não fico perdendo tempo com bobagens e assuntos triviais. Faustão não acrescenta ou contribui em nada para o meu crescimento intelectual.

De mais a mais, me interesso mais pela dança endiabra dos anônimos que cruza todos os dias minha jornada diária. Um deles é a dona Antônia, moradora de Águas Lindas (GO). Doméstica há anos, todos os dias se levanta às 3h30 da manhã para ir trabalhar do outro lado da cidade, Águas Clara (DF), aonde chega – salva nenhum problema com o ônibus ou trânsito -, religiosamente, às 6h30. Mas não antes sem deixar pronto o café do nego e sua marmita.

E quando ela chega na casa da patroa, ainda com o dia por raiar, escancara aquele sorriso de orelha a orelha, como quem estivesse agradecendo por mais um dia de trabalho. Pois bem, ali na estação do metrô do ParkShopping, volta e meia sou surpreendido pelo som do trompete de um jovem músico descolado que hipnotiza os ouvidos dos transeuntes. Ela ataca de Miles Davies a John Coltrane, passando por Chet Baker, e até temas da novela Tieta. Não fosse a ditadura dos horários, daria até vontade de ficá-lo ouvindo ali até o último metrô. E eu que nunca joguei uma moedinha sequer no seu case. Talvez por medo de, se fizer isso, um dia ter que também exibir meus dotes musicais para rostos e ouvidos anônimos.

E nosso músico anônimo parece incansável. Outro dia mesmo, tomei um susto quando o vi com chapéu estiloso tocando na plataforma suja, malcheirosa e largada da rodoviária do Plano Piloto. Era como se, com seu trompete mágico e lírico, ele fosse a única coisa bela e limpa no local. Como se vê, na vida real, os artistas anônimos também se vira nos trinta bem melhor que os clowns fake do Faustão.

* Este texto foi escrito ao som de: Kind of blue (Miles Davies – 1959)

Kind of blue

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