Adeus, Columbus – Philip Roth

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Descobrindo bem tarde a obra do escritor norte-americano de origem judaica e me deleitando muito com seu humor corrosivo e olhar crítico

Bastou um livro apenas para que eu ficasse fã ardoroso do escritor norte-americano Philip Roth. Ok, eu sei que já vai tarde essa minha descoberta, mas o que eu posso fazer se o tempo é curto para o deleite da leitura e a gama de livros formidáveis que tenho na minha estante é enorme. São tantas obras de autores que li, reli e que ainda não descobri que às vezes me perco. Mas quer saber? Comecei bem, sem que soubesse, lendo logo o primeiro livro que o autor publicou em 1959, aos 36 anos, Adeus Columbus. E logo me identifiquei com o estilo corrosivo, cínico e crítico do autor que tem um olhar niilista sobre a natureza humana.

 

Adeus, Columbus é um livro de estreia, mas não de principiantes”, atestou certa vez o amigo e escritor Saul Bellow, com quem Roth aprendeu que o mundo judaico do qual pertence, podia ser universal.

Nascido em Newark, em 1933, uma cidade vizinha à metrópole Nova York, Philip Roth cresceu cercado de figuras e situações que descreve em suas histórias. O humor judeu e o olhar contestador sobre a religião de seus antepassados estão presentes a partir de reflexão moral contundente. O curioso é que, embora suas tramas sejam carregadas de personagens conservadores e radicais, ele mesmo foi um menino negligente quanto ao assunto. Fez o seu bar mitzvah (rito passagem que insere jovens judeus à comunidade judaica) aos 13 anos e depois disso nunca entrou numa sinagoga. Seu apartamento em Nova York, por exemplo, é destituído de símbolos judaicos. Ou seja, pertence a uma geração de judeus americanos que não sentiram o peso da tradição.

É o caso do personagem Eli, de um dos contos de Adeus Columbus, incomodado com um amigo da comunidade que ainda guarda fortes resquícios da cultura judaica no seu dia a dia. “No domingo eu levo minha filha para aprender histórias da Bíblia… e você sabe o que ensinam a ela? Esse tão de Abrão da Bíblia ia matar o filho num sacrifício. Ela tem pesadelo por causa disso, pelo amor de Deus! Então religião é isso? Hoje em dia um cara assim ia acaba internado!”, ironiza o autor.

O sexo, tema convulsivo abordado em sua literatura, surge na novela que dá título à obra, na história do jovem casal Brenda e Neil, que descobre o amor e os limites de uma paixão de verão. “Como descrever o ato de amor com Brenda? Foi delicioso, como seu eu tivesse finalmente marcado aqueles vinte e um pontos”, diz o jovem apaixonado, comparando o seu ato de prazer a uma jogada de futebol americano.

Interessante como Roth consegue envolver de forma contagiante todos os membros da família em torno dessa relação, entrelaçando conflitos religiosos, ganância e hipocrisia familiar. As tramas paralelas são igualmente instigantes, como a amizade de Neil, então um funcionário da biblioteca, com um pobre menino que vai ao espaço apenar para ver as mulheres nuas de Gauguin. Sacanagens do fauno Philip Roth.

Em A conversão dos judeus, talvez a história mais divertida desse livro, um menino questionador faz um rabino severo dobrar os joelhos diante do cristianismo ao submetê-lo a um dilema cruel. Será que ele acredita mesmo no que está pregando? “(…) Todos os que estavam ajoelhados na rua prometeram que nunca mais iam bater em alguém por causa de Deus”, narra o autor.

Como se vê, nos textos, de Philip Roth, os personagens caem sozinhos nas ciladas que o próprio destino prega.

* Este texto foi escrito ao som de: Birth of the cool (Miles Davies – 1957)

 

Birth of the cool

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