O homem na varanda do Antonio’s

José Carlos Oliveira 2

Carlinhos Oliveira (à dir.) com ilustres amigos, Paulo Mendes Campos, Rubem Braga, Fernando Sabino, Vinicius, Sérgio Porto e Chico Buarque

Agora que eu não sou mais um alcoólatra de plantão, posso falar dessas coisas. Nenhum outro cronista descreveu a boêmia carioca, com seus bares folclóricos e personagens marcantes do que o capixaba José Carlos Oliveira, o Carlinhos Oliveira. Durante muito tempo, sentado num desses redutos da boa vida e do prazer, ele, um boêmio incorrigível da Zona Sul, foi o “homem na varanda do Antonio’s”, aquele observador tímido e baixinho que registrava, com seu estilo elegante e coloquial, o cotidiano do carioca sob o ensolarado sol, mas, sobretudo, à noite, que é quando os gatos eram mais pardos.

 

“Conheço bem a noite, nela não me perco, pelo contrário, ela me sitia, circunscreve e julga”, escreveu ele em uma de suas crônicas, dezenas delas só no falecido Jornal do Brasil, um dos maiores diários desse país onde trabalhou por 23 anos.

Eram os agitados anos 60 e 70, uma época em que o romantismo e a inocência assaltavam os personagens ao invés da desenfreada violência de hoje. Um período de grande efervescência cultural, encontros do balacobaco e figuras surreais por bares míticos como o Vilariño, o Juca’s Bar, o Amarelinho, o Jangadeiro, o Veloso (Atual Garota de Ipanema), o Zeppelim e tantos outros. A maioria deles, tocados por portugueses e alemães, que parecem ter inventado aqui na cidade maravilhosa essa feérica modalidade.

Para o jornalista e escritor Jason Tércio, organizador das crônicas, Carlinhos de Oliveira “foi o primeiro e único cronista até hoje a construir uma narrativa panorâmica da boemia brasileira, embora muitos de seus contemporâneos e antecessores tenham sido também adeptos desse estilo de vida”.

E a turba ignara que transitava por esses redutos cheirando a álcool e petiscos, era de arrepiar. Entre tantos outros, gente do naipe de um Paulo Mendes Campos, Hugo Bidet, Roniquito, Vinicius de Moraes, Jaguar, Leila Diniz, Tarso de Castro, Lúcio Rangel, Chico Buarque de Hollanda, Carlos Drummond de Andrade e a dupla sensação da Bossa Nova, Vinicius de Moraes e Tom Jobim, personagem da deliciosa crônica, Vinicius e o português.

Os temas de suas crônicas eram os mais variados. O amor, a falta dele, amigos, encontros e desencontros, o mulherio, os cafajestes, arte, dinheiro, sexo, e, em tempos de ditadura, até mesmo política. Mas também novidades como o surgimento da casa de show Canecão, a vinda ao Brasil da banda inglesa Herman’s Hermits, uma possível visita da família real ao bar Antonio’s. Contudo, o cenário, na esmagadora maioria das vezes, era a mesa de um boteco, tendo como cúmplices sempre um copo de uísque e o doce barulho do mar.

“Culpa não me cabe se no Antonio’s acontecem coisas. Ali a atualidade e a fantasia frequentemente se misturam de forma irremediável”, fez mistério certa vez em um de seus textos.

* Este texto foi escrito ao som de: There’s a Kind of Hush All Over the World (Herman’s Hermits – 1967)

Herman's_Hermits_-_There's_A_Kind_Of_Hush_All_Over_The_World

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