Da hipocrisia das tragédias

Attacks in Paris aftermath minute of silence

Todo tipo de violência é repugnante, mas somos responsáveis pelo o que plantamos. EPA/LAURENT DUBRULE

Não tem muito tempo e andou circulando pela internet um vídeo fortíssimo com a execução de 200 crianças sírias no Oriente Médio. Acho que foi no Iêmen. O terrível massacre era de autoria do mesmo Estado Islâmico que, na semana passada, reivindicou os atentados que mataram mais de 120 pessoas em Paris, deixando dezenas de feridos. Bem, que eu me lembre, a mídia mundial e aqui no Brasil não fez tanto alarde e nem esbanjou comoção piegas, como fez uma edição do Jornal Nacional, com relação ao primeiro caso. Já o episódio num dos maiores cartões postais do planeta deixou consternado até mesmo quem nunca foi a Paris ou atravessou o Atlântico. Mas eu entendo. É mais chique verter lágrimas em francês.

Nesse mesmo período, uma polêmica nas redes sociais questionou o fato de os brasileiros ficarem mais sensibilizados com os atentados na cidade-luz, do que com a tragédia ambiental no interior de Minas Gerais que matou sete pessoas, deixando dezenas de desaparecidos e destruição em proporção ululante. Verdade ou não é fato que as notícias que foram bafejadas da Torre Eiffel ofuscaram o mar de lama que soterrou Mariana.

Mas que diferença faz tudo isso se em todos os casos houve mortes, dor e um revoltante e latente estado impunidade, desconfiança e terror? O triste episódio envolvendo o Rio Doce, em Minas Gerais, é deprimente porque as autoridades brasileiras, dos deputados corruptos, passando pelo governo federal e os próprios diretores da empresa, que funciona com capital estrangeiro, já que um dos sócios é inglês, não moveram uma palha no sentindo de uma ação efetiva e punitiva. Falam em multas milionárias, mas duvido que no final a Samarco vá sair no prejuízo.

“O Rio? É doce. A Vale? Amarga. Ai, antes fosse mais leve a carga”, escreveu profeticamente, certa vez, o poeta Carlos Drummond de Andrade, num poema que nunca foi publicado em livro.

No caso dos franceses, sem querer se cínico, mas já sendo, o fato é que, a França, assim como as outras grandes potências que dominam o mundo e vem sofrendo na mão dos terroristas, está pagando por gestos criminosos do passado. Ou seja, aqui se faz aqui se paga e nesse caso, por anos de opressão e exploração de países pobres africanos e asiáticos. Até hoje, a relação do país com a comunidade árabe é tensa. Alguém aí já assistiu A batalha de Argel?

Não estou dizendo que violência se combate com violência. E nem estou defendo que o que aconteceu na França foi merecedor ou bem feito. Não mesmo, porque crime nenhum, seja qual ideologia, religião ou motivação que se siga, vale à pena. Sou contra ao radicalismo. Mas somos responsáveis por nossos atos e tudo volta. Plantamos o que colhemos. Sempre plantamos o que colhemos. Em quem leva a pior nesse acerto de contas? Civis inocentes!

* Este texto foi escrito ao som de: Teenage head (Flamin Groovies – 1971)

Flaming Groovies

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Um comentário sobre “Da hipocrisia das tragédias

  1. Ao enveredar pelo misticismo ( aqui se paga) você sai da realidade.
    E a contradição humana é só isso: contradição.
    O que você é contra ou a favor não tem qualquer relevância.
    Só importa para você. Voz que clama no deserto.
    (Escrito ao som do passarinho do vizinho cantando lá fora, infelizmente preso numa gaiola)

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