Testemunha de acusação (1957)

O brilhante ator Charles Laughton na pele de um advogado doente persistente

O brilhante ator Charles Laughton na pele de um advogado doente persistente

Billy Wilder é um dos meus cineastas preferidos e a razão dessa paixão insana pelo artista está no cinismo realista com que ele encarava a vida. Fosse Billy Wilder o diretor de Os dez mandamentos (1957), iria cobrar pedágio aos judeus para que o “povo de deus” pudesse atravessar o mar vermelho. Rodado em 1957, Testemunha de acusação é uma prova contundente da falta de fé do diretor diante da humanidade.

Baseado em peça de sucesso da dama do teatro Agatha Christie, o filme, indicado a seis Oscars, narra, a princípio, o drama do desempregado Leonard Vole (Tyrone Power), acusado de matar uma viúva ricaça. Seu único álibi é o testemunho da esposa vivida por Marlene Dietrich, uma femme fatale ariana que parece conspirar, por bons motivos, contra o amado que a salvou dos escombros da 2ª Guerra Mundial.

Só vamos saber realmente do que se trata essa ardilosa teia de intrigas imorais e interesses escusos no último minuto do enredo, cheio de reviravoltas, por sinal. Mas, enquanto, isso não acontece, ao longo das quase duas horas de fita nos esbaldamos com a generosa atuação do magnânimo ator inglês Charles Laughton, aqui na pele do advogado doente de defesa da vítima, uma velha raposa dos tribunais. Com seu jeito bonachão, irônico e pragmático de ser, o ator veterano ofusca as estrelas dos astros Tyrone Power e Marlene Dietrich. Aliás, ela faz uma deliciosa dobradinha com a enfermeira zagueirona encarnada pela competente Elsa Lanchester. “Em nossas cortes aceitamos as evidências de testemunhas que só falam búlgaros e que devem ter um intérprete. Aceitamos as evidências de surdos-mudos que não falam, contato que digam a verdade”, ironiza.

Uma daqueles clássicos thrillers de tribunal, o grande charme da narrativa de Testemunha de acusação está no humor amargo e teor cínico que o diretor Billy Wilder empresta o tempo todo ao texto de Agatha Christie, dando assim a sua inconfundível marca. Ou seja, o tempo todo sabemos que foi a autora de clássicos como Assassinato no Expresso Oriente e Morte sobre o nilo, quem escreveu a trama, mas ninguém desconfiaria se dissesse que o texto foi escrito pelo velho Billy. Assim como o brilhante Charles Laughton, uma raposa das telonas.

* Este texto foi escrito ao som de: Eletric Warrior (T-Rex – 1971)

Eletric Warrior

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