Vandré – O homem que disse não

“A vida não se resume a festivais…”, o artista, durante o fatídico festival.

Um dos meus ídolos de adolescência foi o cantor Geraldo Vandré e, sim, tudo por conta da canção icônica, Pra não dizer que não falei das flores (Caminhando), hino contra a repressão política nos anos 60. Como militante estudantil sonhava em salvar o mundo das injustiças e arbitrariedades humanas, me sentindo motivado quando ouvia o cantor paraibano de voz tonitruante bradar versos contundentes contra os militares naqueles opressivos anos de chumbo. “Vem vamos embora que esperar não é saber/Quem sabe faz agora não espera acontecer”, diz o refrão potente.

Talvez motivado por essas recordações de adolescente que fui com certa sede ao poço para ler a biografia Vandré – O homem que disse não, do jornalista mineiro, Jorge Fernando dos Santos. Lançada pela Geração Editorial, a obra, evidentemente, não é autorizada pelo artista polêmico e recluso. Mas isso não é problema porque o Gay Talese não conseguiu falar com o Frank Sinatra certa vez, e mesmo assim, rascunhou um perfil belíssimo sobre o grande cantor de belos olhos azuis.

Contudo, o livro deixa um pouco a desejar porque o jornalista Jorge Fernando usa como principal fonte para o seu trabalho outra biografia escrita sobre o ídolo da MPB, o livro Geraldo Vandré: Uma canção interrompida, fruto de dez anos de pesquisa do jornalista, Vitor Nuzzi. O que não configura um problema em si, mas confesso que isso me incomoda um pouco.

Enfim, de qualquer forma, Vandré – O homem que disse não traz impressionante relato sobre a trajetória do artista que ganhou o respeito do grande público e da imprensa especializada por enfrentar sozinho, os militares, apenas com um violão em punho e versos sinceros, para depois sair de cena e nunca mais cantar no Brasil, sumindo literalmente, do mapa.

“Protesto é uma coisa de quem não tem poder”, diria na famosa entrevista com Geneton Moraes Neto, para a GloboNews.

Os bastidores de sua passagem pela televisão e os festivais que cantou são um deleite a parte, assim como a revelação do temperamento difícil do artista que vivia se desentendendo com todo mundo ao seu redor. Um deles o cantor Geraldo Azevedo, então membro do Quarteto Livre, grupo musical que acompanhava o artista em suas apresentações.

Outras passagens relevantes no livro dizem respeito a fuga de Vandré do país, supostamente ajudado por certo capitão do exército. “Quem tirou o Vandré do país foi um oficial do Exército. Um capitão botou ele num jipe e tirou ele do país”, Telé Cardim, uma ex-líder de torcida dos festivais.

No livro, o autor apresenta várias versões para a origem da canção que foi abolida em território nacional por quase 30 anos. Uma delas é de que Caminhando foi a resposta de Vandré a raivosa Revolution dos Beatles. Já o poeta e jornalista Francisco de Assis Angelo escreveu no encarte do CD Nação nordestina, de Zé Ramalho, que o músico se inspirou no movimento das pessoas nas ruas, de cima do prédio da Cinelândia, no Rio. Rascunhada num papel de embrulhar pão, a canção teria sido um desabafo do artista contra os esquerdistas que o acusaram de fazer show na época, para o governador biônico de São Paulo, Abreu Sodré, de quem ele era amigo.

“Acabei de fazer uma música para cantar sozinho. Não sei se vai dar pé”, revelou ele ao jornalista Tárik de Souza e o músico Paulo Cotrim, na mesa do extinto Juão Sebastião Bar.

* Este texto foi escrito ao som de: Pra não dizer que não falei das flores (Geraldo Vandré – 1968)

Vandré 2

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