Central do Brasil (1998)

"Central do Brasil" é um projeto especial na trajetória do cinema de retomada...

“Central do Brasil” é um projeto especial na trajetória do cinema de retomada…

Continuo achando que Abril despedaço ainda é o melhor filme de Walter Salles, mas Central do Brasil é um projeto especial não apenas na carreira do cineasta, mas na trajetória do cinema de retomada nacional. Mais do que Cidade de Deus (2002), se querem saber e não tem nada a ver com a indicação da fita para o Oscar. Tem a ver com a grandeza pessoal da história que conquistou o público por algo que nunca deveria deixar de fazer parte das tramas que dançam nas telonas: a simplicidade.

Sozinha na vida, Isadora (Fernanda Montenegro) é uma professora aposentada que sobrevive escrevendo cartas para analfabetos na estação Central do Brasil. Cartas essas que ela escreve e promete colocar no correio para pessoas que, por algum motivo nessa vida torta que carregamos nas costas, estão perdidas em busca de um ente querido, alguém que a distância e os problemas pessoas de naturezas diversas não querem que fiquem juntas.

“Essas cartas ficam anos nesse purgatório”, debocha a melhor amiga e vizinha vivida pela sempre divertida e competente Marília Pêra.

Gente solitária como o pequeno Josué (Vinícius de Oliveira), que mora no Rio de Janeiro com a mãe, sem parentes e amigos, sem eira e nem beira e que sonha em conhecer o pai que nunca viu e vive em algum lugar do sertão nordestino. Mas um dia a mãe morre debaixo de um ônibus e sobra para a amarga, seca e, às vezes má, Isadora, cuidar do menino. O “moleque”, como ela o chama, caiu de paraquedas no seu colo e ela não sabe se o vende por milhares de dólares para um grupo de contrabandistas de crianças ou se perde com ela na estrada em busca do pai.

Ela escolhe então a segunda opção e embarcamos assim num road movie cercado de descobertas dolorosas, realistas e porque não humanistas. “Minha mulher é a estrada. Eu não tenho família”, diz um caminhoneiro com que a dupla de desajustados pega carona rumo ao destino incerto.

Escrito por Marcos Bernstein e João Emanuel Carneiro – hoje novelista de sucesso -, Central do Brasil fala, entre outras coisas, sobre a descoberta do outro. Do pai ausente que nunca será encontrado, dos irmãos de Josué que ele nem imaginava que existiam, dessa figura estranha e sobrevivente que é Isadora. Uma ilha de mistério e surpresa vagando sem rumo nesse mar de incerteza que é a vida.

* Este texto foi escrito ao som de: Construção (Chico Buarque – 1970)

 Construção - Chico Buarque

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s