Discoteca Básica (8) – Band on the run (Paul McCartney)

Paul e os Wings, em turnê promocional do clássico álbum em 1976

Paul e os Wings, em turnê promocional do clássico álbum em 1976

Em 1973 Paul McCartney enfrentava um dilema atroz. Como seguir em frente com a nova banda, os Wings, depois de uma década fazendo parte de um dos maiores fenômenos musicais de todos os tempos: os Beatles? Com quatro discos gravados até então e alguns sucessos tímidos – no Reino Unido e na América -, o músico ainda não havia conquistado respeito entre a crítica, muito menos confiança dos fãs da época da beatlemania. O talento se esvaíra sem o eterno parceiro John Lennon?

A resposta viria com o clássico Band on the run, que se tornaria um dos mais bem sucedidos álbuns dos anos 70 e o maior sucesso de sua carreira solo. Gravado em dezembro 1973, em Lagos, Nigéria, o disco tinha tudo para não dá certo. Isso porque, nos bastidores, tudo deu errado. A ideia de gravar o álbum não em Londres, mas em um lugar exótico, partiu de Paul, então com 30 anos, no intuito de germinar um conceito escapista que já evidenciava no título do disco. “Estava em busca de aventura”, confessaria o artista, 40 anos mais tarde.

Os problemas começaram surgir um dia antes, quando dois integrantes saltaram fora do barco. O baterista Denny Seiwell e o guitarrista Jimmy McCullough.

“Hoje eu conto isso com tranquilidade, mas na época fiquei furioso”, lembrou o ex-beatle, numa entrevista exibida outro dia, no Canal Bis.

Finalmente no país africano, Paul, Linda e Denny Laine constataram que o estúdio da EMI por lá não tinha nada do luxo, conforto e sofisticação técnica do de Londres. Para piorar as coisas, poucos dias depois de já instalados no lugar, Paul e Linda foram assaltados no caminho do estúdio para casa, perdendo as fitas demos do que já tinham gravados e quase a própria vida. “Linda foi ótima, ela ficava gritando o tempo todo para os assaltantes: ‘Não façam nada, não façam nada, ele é um músico!’”, recordaria Paul, entre gargalhadas. “Como se isso fosse adiantar alguma coisa”, debocharia ainda.

A finalização de Band on the run foi feita na Inglaterra e contou com capa icônica, onde astros da música, do esporte e do cinema aparecem como fugitivos sob um holofote de prisão. Para citar alguns nomes, os atores Christopher Lee e James Coburn, John Conteh, boxeador de Liverpool, campeão do meio-pesados e o colunista Clement Freud, neto de ninguém menos do que Sigmund Freud.

A faixa-título é deleite puro, com sua concepção escapista fulminante. “Preso atrás destas quatro paredes/Mantido aqui dentro para sempre/(…) Se algum dia eu sair daqui/Penso em doar tudo/(…) Tudo o que eu preciso é um chopp por dia”, diz trecho da letra. Gosto da segunda parte, quando o violão explode falando sobre chuva, sol e diversão. “Band on the run/Band on the run!”, grita Paul, feliz da vida.

Bluebird é uma balada da fase Paul dos Beatles, com sua melodia doce e tocante. O solo de saxofone dá um charme sensual à faixa, uma das melhores já escrita por Sir McCCa. Já Let me roll it é o artista experimentando novos sons e construindo um estilo próprio na carreira solo. O forte deste blue romântico são os riffs de guitarra rascante e refrão up pegajoso. “Não posso lhe contar como eu me sinto/Meu coração é como uma roda/(…) Deixe-me rolá-lo até você”, canta o artista, tomado de paixão.

Nessa linha segue a melodiosa No words, um canto singelo sobre dois seres-humanos apaixonados. Poderia muito bem ter entrado no White Album dos Beatles. A malemolente Mamunia é Paul expressando em fraseados melódicos suas experiências empíricas no país africano. Mas é a divertida Picasso’s last words (Drink to me) que traz uma das melhores histórias do disco, quando Paul McCartney, de férias em Montego Bay, na Jamaica, foi desafiado pelo ator Dustin Hoffman a escrever uma canção. O ator, no país caribenho para gravar o thriller Papillon, junto com Steve McQueen, perguntou se o ex-beatle conseguia escrever canções sobre qualquer tema, dando como referência um recente artigo sobre a recente morte do pintor espanhol Pablo Picasso.

“Foi legal ver o entusiasmo do Dustin, ele chamou a esposa, gritando: ‘Vem cá ver o que ele fez’, achei legal a surpresa dele”, recordou Paul orgulhoso e com o ego inflado. “Beba por mim/Beba pela minha saúde/Vocês sabem que eu não posso beber mais”, teriam sido as últimas palavras do mestre cubista.

E assim nasceu um clássico do rock! Numa concepção nietzcheana ou de Shakespeare, sei lá, de que do caos nasce a beleza.

* Este texto foi escrito ao som de: Band on the run (Paul McCartney – 1973)

Band on the run

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