O tempo e o vento – O arquipélago vol. 3

O escritor gaúcho em momento de descanso em seu escritório...

O escritor gaúcho Érico Veríssimo em momento de descanso em seu escritório…

Há um certo romantismo humanista na monumental saga de O tempo e o vento que me comove e até me faz acreditar, por algum segundo, que o ser humano vale à pena. Mais do que isso, que não sou tão mau-caráter assim. Mas só por um segundo… E esse lado meio esperançoso do texto de Érico Veríssimo incomodou muito alguns críticos que o achava ingênuo demais. Mas quem quer ser sério nesse mundo decadente e insano de hoje?

Em todos os volumes dessa aventura sempre há um personagem que encarna os sonhos, ideários e anseios dos oprimidos e carentes de justiça. Em emocionantes capítulos passados me deliciei com os rompantes do galante capitão Rodrigo, depois com o pragmatismo soturno da velha Bibiana, mais tarde com o poético e intelectual médico Carl Winter, sem falar da rebeldia passional do pintor espanhol Pepe García.

O herói da vez aqui é o inquieto Rodrigo Cambará, que em histórias passadas era apenas um menino que um dia se viu exilado no Sobrado vítima de pendengas regionalistas entre republicanos e maragatos com o irmão. Mas que agora não passa de um velho moribundo que amarga em cima da cama o desterro não apenas de uma carreira política, mas também a decadência da tradicional família gaúcha.

Tudo isso me faz lembrar o formidável relicário-memorial, O som e a fúria, de William Faulkner, que sintetiza o declínio da sociedade sulista norte-americana, a partir dos conflitos morais de uma família. Mas essa é uma outra história.

Se você for esperto e prestar atenção, vai notar que a história do primeiro volume de O arquipélago – que se passa no começo dos anos 20 e segue até o fim da era Vargas, presidente do qual Rodrigo Cambará é um amigo pessoal -, aborda temas sociais caros da época. Fala da metamorfose de uma república calcada nas velhas oligarquias rurais em uma sociedade industrial burguesa.

Esse Érico Veríssimo era foda. E o Fernando Henrique Cardoso é quem tinha razão. O pai sempre foi melhor que o filho, que é bom pra cacete.

* Este texto foi escrito ao som de: Early tapes (Cat Stevens – 1993)

Early tapes - Cat Stevens

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