Fome (2015)

Corre o risco do ator-professor Jean Claude Bernardet levar o prêmio de melhor ator

Corre o risco do ator-professor Jean Claude Bernardet levar o prêmio de melhor ator

Apesar de francês, Jean-Claude Bernardet tem mais intimidade com o cinema brasileiro do que com o de seu próprio país. Pelo menos do ponto de vista acadêmico, da pesquisa. O que dá intimidade e propriedade de sobra para o crítico de cinema, ensaísta, roteirista, diretor, escritor e professor aposentado da Escola de Comunicação e Arte da USP brincar de ser ator, o que já fez em mais de 15 filmes como ator. Fome, atração de ontem (17) da mostra competitiva do Festival de Brasília é um deles.

Na fita dirigida por Cristiano Burlan ele é um mendigo que perambula pelas ruas de São Paulo com seu carrinho de supermercado cheio de cacarecos. A grande metrópole é uma selva de pedra indiferente com seus prédios impactantes e soberba urbana e surge na trama como um personagem. Apesar do artificialismo do roteiro que mistura pseudodocumentário com pseudo ficção, o enredo aborda premissa desconfortável. A triste realidade dos moradores de rua das grandes metrópoles.

“Ah, seu burguês! R$ 5 cinco não é nada pra você”, debocha ele, um morador de rua com certa elegância que transita por entre motorizados esnobes. “Não vai dar nada? Nem um sorriso? O sorriso é de graça”, ironiza.

Pontuado por fotografia em preto e branco imponente, Fome é mais uma dessas produções experimentais que tenta testar os limites entre realidade e fantasia. O verbo, a força da palavra mais uma vez entra em cena e aqui com certa teatralidade, para desconstruir tudo o que se vê, ou seja, o tema social em questão, os personagens e a própria narrativa em si. Verdade x mentira. Cinema x ou = teatro? Mais Festival de Cinema de Brasília impossível, mas não sei se gostei, se a fita me convenceu.

A verdade é que o intelectual francês Bernardet mais uma vez rouba a cena e é bem capaz de abiscoitar o candango de Melhor Ator. A cena dele discutindo seu passado de professor com um aluno arrogante numa praça é divertida, ofuscada, contudo, pela poesia das ruas do encontro com um artista homossexual. “Depois que se viu a morte… É possível morrer de amor por alguém?”. Eis o grande dilema do filme.

* Este texto foi escrito ao som de:  Kill uncle (Morrissey – 1991)

Kill Uncle

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