Dona Maroca, a carola

Tinha uma fé de araque como papelão jogado na chuva

Ela tnha uma fé de araque como papelão jogado na chuva

Chegou do trabalho cansado e aborrecido por conta das chatices do chefe. Ou seja, paciência zero. Ao abrir a porta de casa, deparou com uma cena patética. Ululantemente patética. De tão patética, quase não acreditou. A mãe bem próxima da televisão como se estivesse segurando o aparelho para não cair ou confidenciando algo ao seu ouvido. E olha que aparelhos de TV não têm ouvidos. Não lá em casa.

Por via das dúvidas parou um instante, mirou com atenção o que via, deu-lhe um beliscão para ter certeza de que não estava sonhando e seguiu em frente. Sim, a mãe estava de confabulações com a tevê. Na verdade, estava rezando junto com a tevê e o padreco que estava do outro lado da tela. Um copo do lado de água benta denunciava que o caso era sério. Seríssimo.

Dona Maroca era assim. Rezava de dia, de tarde e à noite. Em casa, ao pé da cama, em encontros religiosos nos vizinhos, na igreja, nas missas de sábado e domingo, e com o padreco da Canção Nova grudado à televisão, como se fossem dois confidentes do senhor.

Acontece que a fé de Dona Maroca, a carola era de araque como um pedaço de papelão na chuva. Ou seja, não valia nada. Ela rezava, rezava, rezava, mas no dia em que uma tempestade com relâmpagos tonitruantes cruzava o horizonte cinza de sua janela ela tremia nas bases. Um dia quebrou a aba da boina de Toniquinho de tanto apertar de medo.

Odeio essas pessoas que se acham melhor do que as outras só porque vão à igreja ou se julgam acreditar num deus que não resolve os problemas dela. Então se reza tanto assim e as coisas não melhoram, ela continua com medo, porque não trocar de igreja, deus ou crença? Pra quê ficar perdendo tempo com um deus que não resolve nada? Eu quando estou triste ou com medo, me sentindo pra baixo e com vontade de suicidar, ouço uma canção dos Beatles, vou brincar com as minhas sobrinhas ou fico olhando meio que hipnotizado para a foto da minha paixão platônica que tem um sorriso mágico que é minha religião, minha fé, meu deus.

* Este texto foi escrito ao som de: Some girls (The Rolling Stones – 1978)

Some Girls

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