Musa do cinema – Helena Ignez

A reprimida  sensualidade da personagem de "O padre e a moça", de Joaquim Pedro de Andrade

A reprimida sensualidade da atriz em “O padre e a moça”, de Joaquim Pedro de Andrade

“It” girl da conservadora sociedade baiana dos anos 50, Helena Ignez era um estouro de mulher quando jovem. Foi de candidata à Miss Bahia a mulher de Glauber Rocha, flertando com o religioso Paulo José em O padre e a moça, de Joaquim Pedro de Andrade, a ter ser a “mulher de todos” nos braços dos ícones do cinema marginal Júlio Bressane e Rogério Sganzerla. Com este último foi casada por mais de 40 anos, até a sua morte em 2004.

Dama do Cinema Novo, musa do “Udigrúdi”, a diva baiana criou tipos marcantes, recheados de deboche e ironia em produções marginais cujo compromisso com uma identidade autoral e de invenção era radical. Nada comerciais, os filmes que estrelou nessa fase tinham autenticidade criativa e rompiam com os dogmas convencionais do cinema preso às amarras do sistema. Abraçou o espírito da vanguarda até hoje, uma septuagenária.

A carreira de atriz teve início aos 18 anos na Escola de Teatro da Bahia, mas deslanchou para as lentes do cinema ao protagonizar o curta, O pátio (1959), do infante terrible Glauber Rocha. Já naquela época uma mulher à frente do seu texto, esboçou um texto sobre a relação entre duas mulheres, ensaio aproveitado por Glauber Rocha no filme Deus e o diabo na Terra do Sol (1964) com as cenas de Rosa e Dadá.

Apesar de linda, exuberante e desejada, valorizou sempre o aspecto interior de sua personalidade, aprofundada com a doutrina Hare Krishna nos anos 70. É mãe de Paloma, Sinai e Djin e eterna mulher do bandido.

Top five Helena IgnezMulher de todos

A mulher de todos (1969) – No debochado filme de Rogério Sganzerla ela é a ninfomaníaca Ângela Carne e Osso, a “rainha dos boçais” que surge aqui como espécie de extensão feminina e aviltante do personagem de seu filme anterior, O bandido da luz vermelha. “Homem bacana só dá trabalho”, desaba após uma de suas aventuras amorosas.

O padre e a moça (1965) – O oposto dos tipos que desenvolve nos filmes de Sganzerla, ela aqui adota uma interpretação mais low profile, na pele de uma recatada mulher que assedia o padre da cidade. A sensualidade reprimida da personagem é um sundae.

A grande feira (1961) – Colunista social da alta sociedade baiana, talvez a experiência lhe tenha sido útil na construção da personagem Ely desse drama social dirigido por Roberto Pires. Aqui ela Ely, uma mulher rica que divide o coração de um marinheiro.

Copacabana mon amour (1970) – Chanchada psicodélica carioca, segundo o crítico Remier Lion, o filme lança um olhar cru e debochado das favelas pelo olhar da fera oxigenada Sônia Silk, uma delícia de vedete cercada pelos mais desvairados dos personagens. A quintessência da parceria vanguardista do casal Helena Ignez e Rogério Sganzerla.

O bandido da luz vermelha (1968) – Aqui ela é Janete Jane, a pistoleira que leva o anti-herói do título à decadência. Nasce o tipo feminino escrachado e irônico imortalizado em vários filmes do marginal Rogério Sganzerla.

* Este texto foi escrito ao som de: Copacabana mon amour (Gilberto Gil – 1970)

Copacabana Mon Amour

 

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