O último poema do rinoceronte (2012)

Drama iraniano homenageia presos políticos evocando trio amoroso inusitado

Drama iraniano homenageia presos políticos evocando trio amoroso inusitado

A poesia do título e o fato de ser uma produção iraniana logo me levaram à sessão deste drama bem ali no Libert Mall, que achei tivesse alguma coisa a ver com o poeta romeno Ionesco e seu famoso poema alusivo a esse animal exótico. Nada a ver. Geralmente filmes de países do lado de lá do Ocidente têm títulos líricos e tramas idem, mas não é o caso desta fita dirigida pelo cineasta de origem curda Bahman Ghobadi. O tom é denúncia e crítica política, mas abordados de forma, digamos assim, inusitado.

Aparentemente baseado em uma história real, o filme, que conta com produção de ninguém menos do que Martin Scorsese, acaba que sendo uma homenagem a todos os presos políticos e pessoas que sofreram com o truculento regime iraniano desde os tempos dos aiatolás. Na trama, um poeta de sucesso e sua mulher bela mulher vivida pela italiana Monica Bellucci são presos quando o Xá cai do poder para dar lugar aos homens de turbantes. Condenados à prisão – ele a 30 anos, ela a 10 -, o casal vem suas vidas destroçadas da noite para o dia, mas logo percebemos que há um ingrediente a mais nessa confusão política que motivou tal arbitrariedade. O amor. Ou o melhor, o desprezo dele.

Impressionante como o diretor trabalha questões como sadismo, excesso de poder e violência física e psicológica sem recorrer a clichês banais e pieguice visual. Há melodrama, sim, mas difícil não escorregar para tal recurso dramático diante de temáticas tão pesadas e no final o espectador sai lucrando, por exemplo, com as belas e sombrias imagens fotografadas em cores sépia e “azul sonho”, e surrealista jogo de sombras e reflexos que confundem com a tragédia pessoal dos personagens. Preste atenção na simbólica passagem da árvore.

“Estes versos são o que restaram do meu pai”, comenta um dos personagens.

Uma experiência cinematográfica impressionante e tristemente delirante.

* Este texto foi escrito ao som de: Odessa (Bee Gee – 1969)

Odessa

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