Minha querida dama (2014)

Kevin Kline e Maggie Smith revivendo amargas lembras numa Paris soturna...

Kevin Kline e Maggie Smith revivendo amargas lembras numa Paris soturna…

Minha querida dama é daqueles tipos de filmes cujo cartaz engana o espectador desatento que não fez uma pesquisa prévia sobre o título antes de comprar o ingresso. A primeira impressão que fica é de que se trata de uma comédia dramática sobre famílias, o que não deixa de ser verdade, mas não uma família normal e com desenlaces escabrosos. Mas a pergunta que fica é: e quem tem família normal?

Mas enfim, daí nós temos então no elenco a veterana atriz britânica Maggie Smith e o talentoso e charmoso norte-americano Kevin Kline e pronto, está armada a cilada para uma boa trama de teatro inglês vertido com propriedade e competência para as telas do cinema. Teatro inglês ambientado na França é bom que se diga, baseado em texto de Israel Horovitz, autor da peça e responsável pela adaptação para o cinema.

Após anos morando na América, Mathias Gold (Kline) viaja até Paris para reivindicar sua herança de direito. Um esplêndido apartamento localizado em área nobre da capital francesa que não será fácil livra-se da atual inquilina (Maggie Smith), uma senhora de 92 anos nem um pouco simpática, protegida por lei que lhe dá o direito de uso de propriedade pelo que aqui no Brasil conhecemos como “usucapião”, uso de bem móvel em função do tempo que teve posse. Ou seja, tudo gira em torno do deus dinheiro, do fantasma da posse.

“Quantos anos você tem?”, pergunta ele cinicamente já apostando na morte da velha. “Como conseguiu chegar a essa idade sendo um nada?”, devolve, ela debochando de sua nitidamente condição de fracassado.

Daí para frente o que se vê é um enredo marcado por reviravoltas reveladoras em que temas afetivos como rejeição, desprezo, negligência familiar e solidão explodem na tela por meio de um texto direto, contundente e de uma melancolia humanista surpreendente. “Meu analista me disse que era preciso eu pegar a criança que eu era no colo do adulto que eu sou, mas toda vez que tentava fazer isso eu envolvia seu pescoço em meus braços”, diz ele sem se dar conta, talvez, de suas tendências suicidas.

Tudo bem que o desfecho do filme é bem banal e conservador, talvez por conta de imposição dos produtores, mas a sinceridade narrativa apresentada no miolo da trama já vale o ingresso, que me desculpe o veterano colega de métier Inácio Araújo. E confesso que depois de ver essa fita perdi o meu preconceito com relação ao ator Kevin Kline.

* Este texto foi escrito ao som de: Undertones (1979)

Undertones 2

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