Teatro – A hora amarela

Peça no CCBB discute os valores morais e o instinto pela sobrevivência

Peça no CCBB discute os valores morais e o instinto de sobrevivência

Nem tem muito tempo e outro dia mesmo estava em cartaz no CCBB uma peça cuja temática era uma hipotética guerra na qual os personagens em cena se diluem num cenário de caos e fim do mundo. Desde quinta-feira na cidade, a peça A hora amarela traz à tona a mesma premissa, conseguindo ser mais impactante em sua abordagem. O texto é de Adam Rapp e a direção de Monique Gardenberg, que encantou o público de Brasília tempos atrás com a assombrosa montagem do lírico Os setes afluentes do rio Ota.

De volta à cidade, ela apresenta agora um clima de opressão e caos em A hora amarela. A trama já começa nervosa, com a personagem de Deborah Evelyn, Ellen, presa, sozinha, em seu apartamento há quase dois meses. O lugar tem aparência de um bunker e a angústia da solidão e do medo a corrói minuto a minuto. O futuro parece incerto, sombrio e a surpresa da chegada de personagens estranhos que invadem sua casa em busca de socorro parece nortear algo cada vez pior.

“Chega uma hora que eu não sei como chorar mais”, diz Ellen.

Em segundo plano sabemos que uma guerra sangrenta está acontecendo lá fora e que existe um cenário de horror e destruição, mas o que está em jogo no texto aqui é o instinto de sobrevivência. A personagem de Isabel Wilker mostra isso muito bem quando rouba os medicamentos do armário trancado à chave de Ellen e depois foge. Não importa o bem que as pessoas façam diante desse clima de desespero, mas como eles vão se sair dessa situação e para isso vale qualquer coisa.

Incômodos relatos de tortura, cães brigando por ossos humanos, a busca pelo prazer tolhido, o fantasma de um soldado morto, a certeza de que o amanhã continuará sem a presença de pessoas queridas e amadas. Independente de estar acontecendo uma guerra, e se num futuro próximo ficarmos sem água, energia elétrica e outros confortos da vida moderna?

Com atuações viscerais e cenário perturbador a peça A hora amarela o tempo todo questiona os valores da sociedade moderna e a posição do ser humano diante desse conflito entre o material e a sobrevivência. Cabe a cada um de nós avaliarmos essa hipotética realidade ao sairmos ao fim da peça.

* Este texto foi escrito ao som de: Never mind the bollocks (Sex Pistols – 1977)

Never mind - Sex Pistols

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