Últimas conversas (2014)

No filme, jovens de escola pública discutem sobre experiências de vida

No filme, jovens de escola pública discutem sobre experiências de vida

Morto tragicamente no final de 2014, o velho Coutinho nos surpreende mais uma vez até nos momentos finais de sua trajetória como documentarista com o incisivo, Últimas conversas (2015), em cartaz Libert Mall. Talvez um de seus trabalhos mais simples, o filme, finalizado pelos produtores, depois que o diretor foi assassinado pelo próprio filho, é também um dos mais impressionantes do ponto de vista da crítica social que faz ao sistema social brasileiro. O foco aqui é a Educação, mostrada de uma forma diferente. Ou seja, não como é precário esse segmento no país, mas de como alunos de classe média baixa do Rio de Janeiro que acabaram de terminar o ensino médio nas escolas públicas, são inseridos nesse meio a partir de suas contundentes experiências de vida.

O olhar da câmera do cineasta é duro e cru, os depoimentos dos jovens, tristes, marcados por histórias cheias de dor e superação. Algumas revelações pega o espectador de surpresa, pela contundência das tragédias pessoais, como a história da menina que era abusada pelo próprio pai dentro de casa. E de outra que sofria bullying na escola pública por ser negra. “É algo que marca a gente para sempre”, diz chorando.

A questão da cota racial também é colocada em foco, assim como os dramas existenciais, conflitos pessoais tão comuns que pairam nessa fase da vida. “O silêncio pode provocar a insanidade”, comenta um jovem poeta cheio de confiança em si.

A cereja do bolo fica para o final, quando uma garotinha de seis anos entra em cena e revela como somos ainda um país socialmente frágil e de como é importante uma base sólida para a garantia de um futuro na escola, na vida mais feliz e seguro. De classe média alta, ela se mostra falante, com sua narrativa de algodão doce que contrasta com o drama pessoal dos outros entrevistados.

A crítica pode parecer rasa, sem norte, e o diretor é o primeiro a confessar isso em depoimento nos minutos iniciais da fita, mas percebe-se o disparte social nas entrelinhas por meio da trajetória de cada um dos envolvidos e o recado do professor Coutinho foi passado. Só não entendeu, não aprendeu a lição quem não quis.

“Deus é aquele homem que a gente não vê”, diz a pequena Luiza, cheia de carisma pessoal. No caso das mazelas do país, refletida pelo prisma da educação, os governantes também são aqueles sujeitos que não vemos.

* Este texto foi escrito ao som de: Sun (Cat Power – 2012)

Cat Power - Sun

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