Gigolô americano (1980)

O ator Richard Gere em cena clássica que personifica o personagem-título

O ator Richard Gere em cena clássica que capta a essência do personagem-título

Paul Schrader é um dos sujeitos mais estranhos de Hollywood. Filho de pais calvinistas holandeses, quase se formou em teologia, mas o cinema o salvou. Convertido à sétima arte, ele flanava pelo submundo de Nova York com as sessões de cinema e logo estava escrevendo sobre os filmes que assistia freneticamente. Dali para o primeiro roteiro foi um pulo e não demorou muito a dirigir suas próprias histórias. O roteiro de maior sucesso da carreira é Taxi driver (1976), obra-prima que catapultou o baixinho Martin Scorsese ao estrelato. A segurança como homem de cinema foi conquistado com Gigolô americano (American gigolo, 1980), que vi outro dia no Telecine Cult.

Estrelado por Richard Gere, a fita marcou meus tempos de adolescente insone pelas madrugadas adentro nas sessões corujas. Naquela época o trailer do filme passava a impressão de sexo no ar, pecado à vista, mas hoje percebo que Schrader insinua com elegância niilista tais premissas na trama centrada no personagem-título.

Belo, elegante e canalha, Julian Kaye é a felicidade das mulheres carentes de Beverly Hills. São coroas milionárias, solitárias e cheias de amor para dar. Dinheiro também. O que faz dele o gigolô mais bem pago da praça. E ele encarna com profissionalismo esse papel de o mensageiro do prazer, na clássica cena em que desfila invejável coleção de camisas e gravatas para cada ocasião. “Tenho algo que posso dar a elas e isso me dá prazer”, diz à sua mais nova conquista, a esposa de um senador em ascensão vivida por Laura Hutton.

Ela é o caso sério de Julian, que continua incendiando as camas das esposas carentes do Gigolo americanobairro chique, até que um crime bárbaro envolvendo uma delas o coloca como o suspeito mais charmoso do pedaço. O próprio comissário que investiga o caso é o primeiro a reconhecer isso e não resiste à piada. “Como faço para parecer como você”, insinua, o perseguindo como um gato persegue o rato pelas ruas da cidade.

Confessadamente baseado no clássico Pickpocket (1959) de Robert Bresson, Gigolô americano envolve o espectador num clima de suspense e elegância trazendo à tona questões contundentes como o contexto gay e a perversidade sexual entre os riquinhos hedonistas da alta sociedade norte-americana.

Essa abordagem ousada para época fez com que atores como Christopher Reeve e John Travolta se esquivassem do papel, mas despertou o interesse de Richard Gere, até então um rosto conhecido do grande público por meio do drama de época de Terence Malick, Dias de paraíso (Days of heaven, 1978). Bastante à vontade em cena, o ator externa com charme e sensualidade, uma cínica reflexão filosófica de Schrader sobre as nuances do amor. O amor bandido, vendido às escuras entre orgias de drogas e perversão. E também o amor sincero que já nasce maculado por, inconscientemente, flertar com as impurezas da natureza humana e os seus pecados mortais.

Nos anos 2000 Paul Schrader ressuscitaria o tema em O acompanhante (The walker, 2007), mas o carisma de Richard Gere o papel ainda é uma referência até hoje.

* Este texto foi escrito ao som de: K (Kula Shaker – 1997)

Kula Shaker

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