A cultura atrasada do machismo

Para mim mulher dirige muito melhor do que homem

Para mim mulher dirige carro, a vida, os negócios muito melhor do que homem

Sábado, 9h da matina de um frio de Sibéria russa e lá estou eu na oficina do Ivomar, especialista em mecânica elétrica. O lado esquerdo do alto-falante do meu carro pifou e eu já esperava uns 30 minutos para ele solucionar o problema. Mecânico bom é assim, mais assediado do que padeiro na primeira hora do dia.

E, enquanto o Ivomar não vinha, eu ia batendo papo com a clientela cativa dele que, assim como eu, aguardava o seu serviço, pacientemente. Pacientemente porque sabíamos que, na mão do Ivomar, o nosso carro sairia dali um brinco. Um deles, por exemplo, levou um carro que estava parado 14 meses debaixo de uma árvore, não sei aonde, e que a fiação elétrica da máquina não foi para o beleléu por que os ratos que moravam no motor pareciam autistas.

Um outro, baixinho atarracado, vesgo, cabelos grisalhos e membros tortos tipo o personagem Batoré, chamou atenção pela falsa simpatia e falatório nonsense, me tirando do sério pra valer ao sintetizar uma mentalidade machista recorrente entre os homens. O de que mulher não sabe dirigir e não entende de carro.

MachismoEsse discurso é uma bobagem ululante até porque, para mim, mulher dirige carro, o homem, os negócios, enfim, a vida, melhor do que muito macho por aí. E quer saber mais? Inacreditável que, em pleno século 20, as pessoas ainda se julguem melhores que as outras por causa da cor da pele ou pelo sexo.

Além de bela, elegante e charmosa, mulher tem também que participar das atividades da vida de igual para igual com o homem e por aí vai. Sempre teve que ser assim e se não é, deve ser porque jamais evoluímos.

Mas como eu ia dizendo, o sujeito me chega todo falante dizendo que estava três dias fora viajando e que, quando volta, encontra o carro todo esculhambado porque a mulher não sabe cuidar direito do possante. Tudo isso por causa de um farolete queimado.

– É porque carro na mão de mulher estraga mesmo, a gente descuida um pouco e elas detonam o carro – reclama. – A patroa estava rodando o tempo todo seu farol e nem prestou atenção. Falei pra ela que se a polícia pegar é tantos pontos na carteira.

Ah, alto lá, né! Essa já é uma frase automática e clichê, que o cara fala sem pensar, sem nenhuma avaliação crítica coerente ou racional. Meramente um espasmo bovino de estultice humana que reflete o quanto o Brasil, um país preconceituoso e machista, ainda está atrasado.

Fui embora fulo da vida, mas daí eu chego ao trabalho no dia seguinte e as agressões contra a delicadeza feminina continuam. Hora do almoço, entro no carro de uma amiga e um colega boçal vê a cena e de longe brinca:

– Aí, meu chapa, tem seguro de vida?

Fala sério, né!

* Este texto foi escrito ao som de: Só morto (Jards Macalé – 1970)

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