A dama do cine Shanghai (1987)

Maitê Proença numa releitura nacional da diva Rita Hayworth

A diva Maitê Proença numa releitura nacional da diva Rita Hayworth

Para mim A dama do cine Shanghai, de Guilherme de Almeida Prado, está entre os 10 melhores filmes do cinema nacional. E o gozado é que quando vi a fita pela primeira vez, lá nos meus tempos de pré-adolescente, não tinha a mínima ideia do que seria cinema noir, Orson Welles, metalinguagem e nem quem era uma tal de Dama de Shanghai. Só me interessava a Maitê Proença e seus lindos olhos verdes. E ela está linda no filme como a estrela do título que inferniza a vida do corretor de imóveis, Lucas, Antônio Fagundes em atuação supimpa.

Num dia de folga, ele decide ir ao cinema e logo constata que, curtir um filme, “às vezes pode ser uma aventura perigosa”. Isso porque lá ele esbarra com a bela Suzana, mulher elegante e charmosa que parece esconder uma vida de mistério e surpresa. Mais do que isso, ela é muito parecida com a atriz do filme exibido naquela sessão.

E na primeira conversa que eles têm ela desdenha a cantada dada por ele, mas dias depois, lá está ela interessada em comprar um apartamento encalhado a séculos em sua mão. Logo ele percebe que não tem nada de coincidência o fato dela ser parecida com uma atriz de cinema e nesse imóvel empacado.

Dama do cine shanghai“Eu não passei a noite em claro só para você me dar um beijo de adeus”, diz salivando, sem perder tempo.

Mas a paquera evolui e eles marcam um encontro num restaurante chinês. Ela lhe dá um bolo, mas não um grupo de capangas aparentemente ligado à máfia chinesa que o confunde com um tal de Tenente. A turma de mal encarados o colocam num carro e parte todos para uma missão que acaba o incriminando de assassinato. Resta agora ele provar sua inocência cujo desfecho culminará numa revelação surpreende a respeito da mulher que ama.

Autêntico filme de gênero e inteligente trama da investigação da narrativa, A dama do cine Shanghai – vencedor dos principais prêmios do Festival de Gramado daquele anos de 1987 -, antes de tudo, é uma homenagem escancarada ao cinema como um todo, aos clássicos filmes de detetives dos anos 40 e 50, ao gênero noir. Note-se que Lucas, o personagem de Fagundes, se passa como um corretor de imóveis, mas se comporta e circula o filme inteiro por ambientes dos grandes detetives hollywoodianos. Os diálogos, afiadíssimos, também são uma referência a este universo. Quer ver? Ele resmunga:

– Aonde você pensa que vai?

Ao que ela rebate:

– Para o inferno!

– Sem titubear ele devolver:

– Pode até ser, mas acho que essa escada não vai até lá.

E claro, se você for esperto, notará, entre uma tomada e outra, cenas do clássico, A dama de Shangai (The lady from Shanghai, 1946), o filme de Orson Welles em que ele cortou as longas e lindas madeixas da mulher Rita Hayworth, e que talvez seja principal fonte de inspiração para Caio de Almeida Prado brincar com os signos cinéticos.

Ao longo de toda trama, inteligentemente, Guilherme de Almeida Prado constrói uma deliciosa, nebulosa e sinuosa armadilha entre o que é ficção e realidade. E ao transpor o clima noir e os temas desenvolvidos pelo gênero para a realidade nacional, o cineasta molda um Brasil paralelo cuja fauna desfila outsiders, pederastas, mafiosos, assassinos e até almas apaixonadas. O último frame do filme é revelador.

* Este texto foi escrito ao som de: The best of Badfinger Vol. 2 (1979)

Badfinger

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