Eu matei Lúcio Flávio (1979)

Além de atuar, Jece Valadão (esq.) foi também produtor do filme dirigido por Antônio Calmon

Além de atuar, Jece Valadão (esq.) foi também produtor do filme dirigido por Antônio Calmon

E quem disse que Robin Hood foi o único bandido amado pelo povo? Nos anos 70, Lúcio Flávio Vilar Lírio também conseguiu respeito e notoriedade entre as camadas mais populares, e o sucesso do bandido carioca era tanto que ganhou filme, imortalizado nas telas pelos lindos olhos verdes de Reginaldo Faria em Lúcio Flávio – O passageiro da agonia, de Hector Babenco. Rodado em 1977, o filme fez mais de cinco milhões de espectadores, feito só conquistado até então no cinema brasileiro pelos trapalhões, projetando nacionalmente os feitos do bandido.

Foi desse mito que surgiria o meu nome de batismo, trocado aos 48 minutos do segundo tempo no cartório, que não aceitou nem a tiros a primeira sugestão de papai, que queria o nome do jogador da seleção alemã da copa de 1974, Paul Bryant.

Mas ao contrário do bandido medieval inglês, o romântico meliante carioca não roubava dos ricos para dar aos pobres, bem pelo contrário. Contudo, conquistou a simpatia de grande parte da sociedade pelas fugas espetaculares da cadeia que realizava e sensacionais assaltos à bancos que promovia, deixando a polícia rodando que nem barata tonta sem conseguir pegar. Bonito, com seus louros cabelos cacheados e olhos verdes, Lúcio Flávio tinha inteligência acima da média.

Antes de virar novelista Antônio Calmon foi cineasta e também contou sua versão da Eu Matei Lúcio Flavio 2trajetória de Lúcio Flávio, mas sob a ótica do policial corrupto Mariel Maryscôtt, vivido nas telas pelo hedonista Jece Valadão no filme Eu matei Lúcio Flávio (1979). Aqui ele é um reles salva-vidas das praias cariocas que ganha oportunidade de entrar para a polícia. Se destacando na Academia como um dos recrutas mais dedicados, logo foi escolhido para fazer a segurança de políticos e não demorou muito para ser convocado pelo secretário de segurança do estado do Rio de Janeiro para fazer parte do famigerado Esquadrão da Morte. Simbolizados por uma caveira, o grupo de policiais tinha como missão extirpar toda corja da sociedade.

“Estamos limpando a cidade para vocês”, era o recado que o grupo deixava em cima dos corpos dos bandidos exterminados.

Produtor do filme, Jece Valadão pinta e borda em cena traçando todas as mulheres que passam pela sua frente e matando todos os bandidos que cruzam em seu caminho. Na vida real, Mariel Maryscôtt agia como superstar na sociedade carioca, namorando belas modelos e atrizes, das quais Darlene Glória, até ser vítima da própria vaidade e cometer erros e excessos profissionais que o levaram para a cadeia, mas precisamente para o presídio de Ilha Grande.

Um tanto quanto superficial, o filme, que tem abertura maneira e roteiro de Leopoldo Serran, peca pelos excessos ególatras do ator e apelos narrativos grosseiros, como aquele em que torturadores se deleitam seviciando um preso ao som de Lady Laura, canção de Roberto Carlos escrita para mãe.

Mais uma cena é antológica, aquela em que Mariel sequestra um carro do IML só para resgatar o corpo nu e frio da única mulher que ele amou de verdade na vida. E quem disse que os brutos também não amam?

* Este texto foi escrito ao som de: Todos os sentidos (Belchior – 1978)

Todos os sentidos

 

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