Billy Budd (1962)

O novato Terence Stamp entre Robert Ryan e Peter Ustinov, veteranos de responsa

O novato Terence Stamp entre Robert Ryan e Peter Ustinov, veteranos de responsa

Grandes atores não se contentaram em doar seus talentos para a câmera e foram se aventurar atrás delas. Foi o caso, por exemplo, de astros como Burt Lancaster e Marlon Brando. O primeiro na realização de Homem até o fim (The Kentuckian, 1955). O segundo com o faroeste moderno, A face oculta (One-Eyed Jacks, 1961). Ambos retumbantes fracassos de crítica e só não foram de público porque as duas estrelas se autodirigiam em cena.

O ator britânico Peter Ustinov trata-se de uma rara exceção como mostra o ótimo Billy Budd (1962). Um dos primeiros papéis de Terence Stamp no cinema, o filme é baseado num texto homônimo perdido do grande escritor norte-americano Herman Melville e narra as aventuras e desventuras de uma frota de navio inglês no auge da marinha britânica em alto mar, período em que os castigos corporais abordo é algo comum e é justamente com um desses acontecimentos medonhos que começa o filme.

Na trama, Terence Stamp encarna o personagem-título, um jovem simpático e atraente que encanta a todos com seu jeito despojado e ingênuo de ser. Ele fazia parte de uma tripulação que acaba sendo abordada pelo navio da Rainha e convocado, pelo seu encanto pessoal, a lutar em nome da Coroa. Em seu novo lar, logo irá se deparar com um antro de crueldades, falsidades e injustiças.

Billy Budd - Herma MelvilleTambém atuando em cena, Peter Ustinov é aqui capitão Edwin Fairfax Vere, um homem justo e honesto capaz de cumprir a risca seu dever, mesmo diante de eminente contradição. É o que acontece quando o cativo Billy Budd é contestado e acusado injustamente pelo sádico contra-mestre Claggart (Robert Ryan em atuação impecável).

É quando começa o endiabrado e oportuno jogo de verdades e mentiras, cinismo e poder construído pelo autor de Moby Dick, numa das narrativas mais humanistas que vi no cinema. A cena do diálogo entre o ingênuo Billy Bud e o ardiloso e rancoroso Claggart no convés do navio, na calada da noite, é uma obra-prima. O estilo irônico do texto é uma das pérolas desse drama de época, junto com atuações impecáveis tanto do jovem Terence Stamp e de veteranos infernais como o próprio Peter Ustinov, Robert Ryan e Melvyn Douglas (Bud), na pele de um marujo nórdico calejado de guerras e injustiças.

Metáforas religiosas e insinuações dúbias sobre a sexualidade da elite do navio são sopradas entre uma sequência e outra, tão tonitruantes como os ventos que fazem sacudir as velas desse imenso corsário. O final é exemplar, triste e marcante.

Peter Ustinov, como se viu, além de grande ator de teatro e estrela de peso do cinema, também se mostrou um talentoso diretor

* Este texto foi escrito ao som de: Alucinação (Belchior – Alucinação)

Alucinação - Belchior

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