Cinco Vezes Favela (1962)

Cena de

Cena de “Pedreira de São Diogo”, contribuição de Leon Hirszman para o projeto

Produzido pelo Centro Popular de Cultura (CPC), entidade ligada naqueles anos de vazio entre os governos de Jânio Quadros e João Goulart, à União Nacional dos Estudantes, Cinco vezes favela é a gênese do Cinema Novo. O próprio Cacá Diegues, então um dos diretores do projeto, admitiria essa relação seminal com o importante movimento cinematográfico mais de 50 anos depois, como lembra em sua autobiografia Vida de cinema. “(Cinco vezes favela) Se tornou um dos pilotis fundadores do Cinema Novo”, reconheceu.

Na época encantados com as produções do cinema neorrealista italiano e admiradores ferrenhos de Nelson Pereira dos Santos e de seus importantes registros, Rio, 40 graus (1956) e Rio, Zona Norte (1958), os realizadores dos cinco curtas tinham em comum a paixão pelo cinema e a agitação dos cineclubes e, embora de outras cidades, eram autênticos representantes da classe média carioca.

Cinco vezes favelaA ideia partira de Leon Hirszman que criara seu formato e título a partir da existência do elogiado e premiado curta, Couro de gato, de Joaquim Pedro de Andrade. O dinheiro que daria o pontapé inicial para o projeto viria direto de Brasília, mais precisamente da recente Fundação Cultural do Distrito Federal (FCDF), via Ferreira Gullar, o jovem poeta maranhense que estava à frente do órgão na época. O próprio Leon Hirszman despencaria do Rio de Janeiro até à nova capital do país em busca de recursos para a empreitada.

Como o tema da favela era uma obsessão entre esses jovens idealistas com tendências comunistas, como lembraria Glauber Rocha no seu monumental, Revolução do Cinema Novo, não foi muito difícil desenvolver tramas ambientadas em cenários naturais de diferentes morros do Rio de Janeiro. Cacá Diegues narrou, por exemplo, os dramas de se colocar uma escola de samba na rua com o apoio dos integrantes da escola Unidos do Cabuçu, localizada na parte alta de Lins de Vasconcelos.

Nas cinco histórias desse filme de episódios a favela e os seus moradores, com as adversidades e agruras enfrentadas no dia a dia, são os personagens principais. No primeiro episódio, dirigido pelo paranaense Marcos Farias, Flávio Migliaccio é um morador do morro ameaçado de se despejado por não ter o dinheiro do aluguel. Os donos lhe deixam um aviso na forma de uma surra e, desesperado, ele parte para uma solução até arrumar outra confusão ao se aliar a um assaltante. O final é dramático e violento.

Espécie de avó-pai (Avohai) do endiabrado Zé Pequeno, de Cidade de Deus, Zé da Cachorra, personagem-título do episódio seguinte dirigido pelo piauiense Miguel Borges, é um justiceiro do morro que não aceita a opressão que vem do asfalto. De modo que logo ele se indigna com o rico proprietário dos barracos que não aceita a chegada de mais um retirante.

“Tá no morro é do morro. Vamos botar essa gente no barraco”, contesta ele, batendo de frente, sozinho, com o poder do “sistema”.

Fecha Cinco vezes favela, depois dos curtas de Cacá Diegues, Escola de samba, Alegria de viver, e Couro de gato, de Joaquim Pedro de Andrade, o político, Pedreira de São Diogo, de Leon Hirszman, que narra o drama e resistência de moradores de uma favela que corre o risco de desaparecer diante das explosões e ambição dos proprietários da pedreira.

Contundentes em suas abordagens, à revelia do tom maniqueísta, e porque não, de certo amadorismo, os filmes apresentam um contraste social que, infelizmente ainda perdura nos dias de hoje, que é o eterno embate entre a classe explorada e a elite burguesa.

* Este texto foi escrito ao som de: Garota de Ipanema (Nara Leão – 1986)

Nara Leão - Garota de Ipanema

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