Poemas dos becos de Goiás e estórias mais – Cora Coralina

Mulher simples, doceira de profissão, a escritora goiana poetisou o Brasil profundo

Mulher simples, doceira de profissão, a escritora goiana poetisou o Brasil profundo

Há um mundo na literatura de Cora Coralina, a escritora goiana que tem a cara da avó dos meus sonhos. Afetuosa, carinhosa e calejada de vida. E eu, como todo bom goiano que sou não poderia deixar de ler essa que é o nosso santuário literário nacional. É de se admirar quem diz que não gostar de Cora Coralina. E tem gente que não gosta de Cora Coralina, uma autêntica mulher do povo, nossa rosa do povo.

Mulher simples, doceira de profissão, viveu os primeiros anos de vida em Goiás Velho (GO), sua cidade natal, quando correu os grandes centros urbanos do país ao lado do marido advogado, até voltar ao recanto de suas raízes em meados dos anos 50, já viúva e marcada pelas andanças. Andanças essas que lhe causariam grandes transformações em seu interior.

“Menina que passa na ponte, menina que pára, que espia o rio”, diz um de seus versos mais marcantes fazendo referência ao rio que corta Goiás Velho (GO).

E, embora já escrevesse desde a infância, só publicou seu primeiro livro aos 76 anos, o cultuado, Poemas dos becos de Goiás e estórias mais, que estou lendo no momento. Ali, está impregnado em versos singelos, diretos e lirismo regional, todo um imaginário do interior brasileiro, com suas lendas, folclores e ditos populares.

Cora Coralina“Vive dentro de mim uma cabocla velha de mau-olhado, acocorada ao pé do borralho, olhando para o fogo”, se entrega no trecho inicial de Todas as vidas.

Os poemas de Cora Coralina – pseudônimo de Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas – são longos e profundos e de uma simplicidade comovente. Quem é do interior ou já viveu lá, quem tem parentes que moram em algum lugar deste Brasil profundo sabe o que quer dizer cada verso escrito pela poetisa de alma brejeira. Como diz o título dessa edição, estão radiografados em sua poesia épica telúrica, os segredos, os encantos e imaginário que vidas que se escondem pelos becos de Goiás Velho.

Em Antiguidades, por exemplo, ela narra falta de afeto em suas lembranças de menina reprimida “que não valia nada” aos olhos dos adultos encalacrados em suas carrancas opressoras e prisioneiros das obrigações diárias. Já em Vintém de cobre, quando vestia um “antigo mandrião de uma saia velha de sua bisavó”, descreve as dificuldades em se conseguir juntar patacas, “na esperança irrealizada de inteirar quinhentos réis”.

De narrativa grandiloquente, Poema do milho esquadrinha do começo ao fim, ou seja, do nascimento até a colheita, os processos e utilidades daquele que um dos produtos símbolos do homem do campo. “Milho virado, maduro, onde o feijão enrama. Milho quebrado debulhado na festa das colheitas anuais. (…) Palha do milho para o colchão. Jogadas pelos pastos. Mascada pelo gado. Trançadas em fundos de cadeiras”, descreve cheio de lirismo.

Nessa edição da Global Editora que tenho, as poesias da vó Cora Coralina são amparadas por belas gravuras de monumentos, casas, praças, espaços míticos e simbólicos de Goiás Velho. Entre elas a velha casa da ponte onde um dia morou essa grande poetisa do coração do Brasil, um reflexo mágico de toda a nação.

* Este texto foi escrito ao som de: Elis (Elis Regina – 1977)

Elis Regina 1977

Anúncios

3 comentários sobre “Poemas dos becos de Goiás e estórias mais – Cora Coralina

  1. Oi Lúcio,
    Quase te enviei um comentário anteontem quando li o seu texto sobre os 80 anos do Vladimir. Também estive lá (te vi chegando já no meio da sessão) e compartilhei emoções parecidas. Foi bom não ter enviado então porque, do contrário, teria que me repetir. Ao ler essa crônica sobre Cora Coralina, o que era vontade virou decisão. Por isso escrevo agora. Não sei se você sabe, acabo de produzir um longa-metragem sobre Cora Coralina, com roteiro e direção do Renato Barbieri. Está praticamente pronto. “Cora Coralina – Todas as VIdas”, o filme, não é ficção nem documentário. Mas sim, todas as vidas de Cora Coralina em uma narrativa poética nas vozes, sentimentos e interpretações de seis gerações de grandes atrizes brasileiras. Uma polifonia das vozes que habitaram Cora, revelada em prosa, verso e imagens com seu imenso talento literário e conteúdo humano. O filme tem Walderez de Barros, Tereza Seiblitz, Beth Goulart, Zezé Motta, Camila Márdila e Maju Souza encarnando diferentes Cora ao longo dos seus 73 minutos. É uma evocação poética à vida e à obra de Cora. De brinde, Camilla Salles (5), tetraneta de Cora, personifica Aninha, uma representação não menos poética da menina que foi um dia Cora Coralina. Segue um link para o promo: https://vimeo.com/114593075

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s