Dívida de honra (2014)

Tommy Lee Jone salvando a honra de uma garota sem juízo...

Tommy Lee Jone salvando a honra de uma garota sem juízo do Velho Oeste…

Dívida de honra, em cartaz na cidade, é um filme seriíssimo e incômodo. Um dos mais pesados que vi nos últimos tempos. Faroeste de doer os ossos de tão direto, cínico e exuberante que é em sua melancolia ácida. Diga-se de passagem, gênero há tempo moribundo em Hollywood, mas que aqui ganha uma sutil camada de renovação numa história triste, bizarra, mas reflexiva. Humanamente reflexiva.

Conta a história de Mary Bee Cuddy (Hilary Swank), uma solteirona sem atrativo e mandona que está seca para se casar, mas seu jeito antipático afasta os homens. “Posso ver porque você ainda é uma solteirona”, despreza um pretendente.

Também do velho caubói George Briggs (Tommy Lee Jones), um sujeito marginalizado que é condenado à forca após um delito banal. Pois bem, quis o destino que os dois se encontrassem e pelo caminho por onde irão passar, esbarrarão em questões como honra, caráter, coragem e uma boa dose de paciência. Isso porque Mary Bee foi encarregada de atravessar o Oeste com uma carga muito estranha, três mulheres loucas que serão tratadas num hospício do outro lado do país. Para dar conta da missão, ela recruta, na marra, o velho lobo das pradarias para escoltá-la. A questão é bem simples. Ela lhe salvou a vida. Agora ele tem que protegê-la até o fim da jornada como pagamento.

“Não me prendo a ninguém, só a mim mesmo”, esclarece ele, apesar de tudo.

Dívida de honra 2E lá vão eles enfrentando as adversidades da vida e da natureza. Numa noite, o frio é de cortar e a pele de búfalo que cobre a carcaça pútrida de um índio lhe serve de coberto. Noutra, um forasteiro mal-encarado rouba uma das moças dementes e Briggs vai atrás em busca de sua carga. Os dois se enfrentam, Briggs está preste a morrer, mas a louca lhe salva explodindo o cérebro do marginal. Podia ser o dele.

Marcado por cenas fortes, chocantes até, Dívida de honra parece demonstrar que o diretor Tommy Lee Jones, com sua carranca de maracujá amassado, não tem alma. E a ideia é por aí. Não é que ele não tenha alma. Mas é porque a humanidade é desumana e cruel. Sempre foi, desde os primórdios. Daí o filme, baseado em novela de Glendon Swarthout, trazer nas entrelinhas certa crença no ser humano. Sim, porque Briggs é um homem amargurado, calejado da vida, mas no fundo demonstra ser uma boa alma. A cena dele escoltando as três mulheres sem juízo pelas águas caudalosas de um rio gelado é comovente. O mesmo pode ser dito da sequência da vingança, em que ele, humilhado, toca fogo num hotel no meio do nada.

Sem a mesma ousadia de Onde os fracos têm vez, dos irmãos Coen, mas com estilo próprio, Tommy Lee Jones imprime aqui uma nova maneira de interpretar o gênero cinematográfico norte-americano por excelência. Já tinha feito isso atrás das câmera por meio do faroeste urbano As três mortes de Melquiades Estrada, que é de uma agonia ímpar. Nos seus filmes, os heróis da trama são personagens marginalizados, outsiders dentro de um sistema tão esmagador quanto a falta de sensibilidade de alguns deles. O conceito maniqueísta são distorcidos e propositalmente confuso. É um trabalho perturbador do ponto de vista psique. Por isso, estimulante. Adoravelmente estimulante.

* Este texto foi escrito ao som de: Pickin’ up the pieces (Poco – 1969)

Poco

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