O homem que virou suco (1981)

José Dumont na pele do personagem-título, papel que chegou a ser de Tom Zé

José Dumont na pele do personagem-título, papel que chegou a ser de Tom Zé

O homem que virou suco é daqueles filmes que sempre tive vontade de ver, até por obrigação cinéfila e, por qualquer motivo que desconheço, nunca consegui assistir. Até outro dia e não me arrependi. Escrito e dirigido por João Batista de Andrade, é um típico filme de seu tempo. No caso aqui, o final dos anos 70, quando o projeto começou a ser rodado para ser lançado só dois anos depois. Em 1979 a ditadura militar dava claros sinais de desgaste e a nação ensaiava uma nova guinada rumo a democracia. Social e economicamente o país escancarava suas mazelas, com a sociedade exprimida entre ricos e pobres, com a distribuição de renda mal dividida entre as duas classes e é justamente sobre lutas de classes que se trata o filme, o que faz dele uma obra política.

No centro deste conflito Deraldo (José Dumont), nordestino recém-chegado a São Paulo em busca de uma vida melhor daquela que deixou para trás. Aqui ele sobrevive de poesia, vendendo folhetos com os versos de cordel que escreve. Tem dia que a grana rende, tem dia que a polícia o incomoda por não ter autorização para trabalhar. Daí um dia um operário-símbolo de uma multinacional assassina o patrão em rede nacional e ele passa a ser caçado pelas autoridades por ser muito parecido com o criminoso. Como ele não tem documento, fica difícil de provar sua inocência.

Para não morrer de fome, passa a fazer bicos em pequenos trampos como ajudante de O homem que virou suco 2pedreiro em obras numa construção, caseiro numa mansão de esnobes, mas sempre entre em conflito com o sistema vigente, ou seja, a burguesia, os patrões, a velha luta de classes. “Muito obrigado pelo bife do cachorro (sic) viado”, debocha ele, ao deixar mais um emprego.

Não resta dúvida qual é o recado do filme que, passados mais de 30 anos de sua primeira exibição, ainda continua atual. Infelizmente. Está retratado ali como muito humor e crítica social  a agonia dos homens que deixam sua terra natal em busca de um novo sonho na metrópole, mas que acaba virando suco dentro das engrenagens opressivas do sistema. Está tudo ali, referências ao clássico de Chaplin, Tempos modernos (Modern times, 1936), mas também O encouraçado Potemkin (Броненосец Потёмкин, 1925), como ilustra a cena da barata na comida dos operários e a revolta, e diria até com o sensacional São Paulo S.A. (1967), de Luís Sérgio Person. O tema, a situação são os mesmos, só muda os personagens, o cenário, o tempo.

“Pra viver de esmola? O melhor é São Paulo mesmo”, se indigna um operário, quando perguntado sobre a ideia de voltar para o Nordeste.

Experimentando, João Batista de Andrade, que começou a carreira no cinema em 1967 como documentarista, flerta com ficção, um pouco de animação, ficção e documentário, como mostra a cena de Lula e as greves. A ideia era que o Tom Zé, o anárquico tropicalista fizesse o personagem-título, mas daí João Batista de Andrade esbarrou em Zé Dumont e deu no que deu. O desfecho da fita é melancólico e surreal, como toda a trajetória do migrante que sonha com uma vida melhor nas grandes cidades.

* Este texto foi escrito ao som de: Todos os sentidos (Belchior – 1978)

Todos os sentidos

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