O último suspiro de Eduardo Galeano

O escritor uruguaio durante coletiva no Churchill Lounge Bar, em Brasília

O escritor uruguaio durante coletiva no Churchill Lounge Bar, em Brasília

Mesmo quem nunca tenha lido um livro do ensaísta, historiador e escritor uruguaio Eduardo Galeano sabe da importância dele como pensador da América Latina. Seu livro As veias abertas da América Latina é referência máxima sobre o assunto e suas ideias acerca do continente correram o mundo. Daí o fato deu ter recebido ontem com tristeza e surpresa a morte do mestre. Tristeza porque o mundo fica mais medíocre. Surpresa porque, assim como o arquiteto Oscar Niemeyer, o cineasta português Manoel de Oliveira, eu cheguei a pensar que Eduardo Galeano fosse eterno.

“A morte, muitas vezes, mente – quando se imagina que uma pessoa morreu, ela continua viva na memória, nas conversas, nas decisões”, era o jeito como lidava com ela.

Bem, a primeira vez que ouvi falar sobre ele foi na faculdade de jornalismo e, desde aquele tempo, seu nome seria uma sombra em minha vida, mesmo não tendo lido, lamentavelmente, nenhum de seus livros. É uma pena que os grandes intelectuais tenham que morrer para serem lembrados, reverenciados e enaltecidos.

Um dos convidados da Bienal do Livro do ano passado, em Brasília, Eduardo Galeano encantou almas por onde passou. Simples, carismático e culto, versou sobre vários temas, abraçou um oceano de gente com o lirismo de suas palavras. Durante uma coletiva no Hotel Mélia, no Churchill Lounge Bar, no Brasil 21, ele respondeu assim a minha pergunta sobre o possível fracasso da esquerda na América Latina.

“A esquerda foi demolida muitas vezes por ter dado certo. Foi castigada pelas ditaduras, pelos sacrifícios humanos e pelas barbaridades cometidas em nome da paz, do progresso e da democracia. Por períodos, a esquerda também cometeu erros gravíssimos. A realidade tem o poder da surpresa”, disse.

Assim como o brilhante colega de métier, Nelson Rodrigues, Eduardo Galeano era uma apaixonado pelo futebol. A ponto de um dia ter sonhado em ser jogador, mas as palavras falaram mais fortes. E as pernas que poderiam correr para chutar bola se transformaram em dedos que deslizam sobre papel. Contudo, muitas vezes ele deixou a paixão de lado para fazer duras críticas a sociedade corrupta do esporte e do lado mercenário dos jogadores.

“A estrutura de poder do futebol no mundo é monárquica. Os dirigentes vivem como em um castelo muito bem guardado. E os protagonistas do futebol, os jogadores, trabalham como macacos de circo”, ironizou.

Vai-se o homem, ficam as ideias. “O travesseiro é como uma máquina capaz de ler sonhos”, gostava de dizer.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s