O segundo rosto (1966)

O filme deu uma guinada na carreira do ator Rock Hudson, em atuação impecável

O filme deu uma guinada na carreira do ator Rock Hudson, em atuação impecável

Estrelado pelo astro gay, Rock Hudson, O segundo rosto (Seconds, 1966) foi um daqueles filmes dos meus primeiros dias de TV a cabo que me marcou profundamente. Toda vez que leio ou vejo alguma imagem dessa fita me vem à cabeça duas referências: o livro O homem invisível, de H. G. Wells e o drama psicológico, Prisioneiro do passado (Dark Passage, 1947), aquele em que Humphrey Bogart tem o rosto mudado após sair da cadeia. Nesse drama psicológico bizarro com pegada gnóstica, John Randolph é o vice-presidente de um banco preso a um casamento enfadonho e vida sem perspectiva. Um dia, ele é procurado por uma organização secreta que lhe faz uma proposta um tanto quanto estranha.

“Meu nome é Ruby e fui designado para discutir com você as circunstâncias de sua morte”, diz um mórbido burocrata, explicando o processo de “renascer” da tal empresa.

Trata-se de um grupo que fornece uma nova vida aos seus clientes, lhes proporcionando um rosto diferente, um corpo diferente e até uma voz diferente. “Renascer é doloroso”, explica o cientista pai dessa louca experiência.

Assim, após uma cirurgia demorada e delicada, nosso bancário entediado surge em cena Rock Hudson“renascido”, no físico de Rock Hudson, sem nenhum vínculo com o passado, adotando o nome de Tony Wilson. Ele é um artista plástico respeitado que tem um estilo de vida agitado e badalado em sua mansão à beira mar em Malibu. Acontece que não tem como mudar o que existe dentro dele e logo Tony Wilson irá entrar em conflito com o seu novo “eu”, se arrependendo de ter embarcado nessa estranha jornada de seu íntimo.

“Não é mais fácil avançar quando não se pode retroceder?”, questiona o mentor dessa estranha aventura.

Então com 41 anos, e já com a carreira em franco declínio, Rock Hudson, outrora uma grande estrela de Hollywood como protagonista de comédias românticas de sucesso, ironicamente começa a crescer como ator numa produção séria e sombria. Sobretudo tendo em vista que atores respeitados como Kirk Douglas e Laurence Olivier estiveram cotados para viver o “renascido” Tony Wilson. A primeira sequência em que ele surge em cena, com sua famosa beleza descaracterizada é de uma coragem assombrosa.

Dirigido por John Frankenheimer (O trem, 1965), o filme, baseado em livro de David Ely (Seconds), é de uma ousadia moderna para época, com sua reflexão contundente sobre a identidade, trazendo perturbadores ângulos de câmeras distorcidos e estilo visual fantasmagórico assinado pelo mestre John Wong Howe (Hud, 1963).

O cenário da clínica de “renascimentos”, com seus elevadores sem botões e paredes claustrofóbicas dão medo. Perfeito em cena, Rock Hudson surpreende o espectador com passagens inusitadas como a que dança nu num tonel cheio de uvas, em plena orgia em celebração ao deus Baco, já prenunciando a festa hippie que viria tomar de assalto a sociedade norte-americana nos próximos anos.

“É um filme controvertido, um filme de horror, bizarro, assustador mesmo…”, comentaria o astro em sua biografia.

* Este texto foi escrito ao som de: Houses of the holy (Led Zeppelin – 1973)

House of the holy

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