Chuva ao som de Rádio Pirata (Vivo)

Caetano Veloso e Paulo Ricardo em especial da Globo em 1986

Caetano Veloso e Paulo Ricardo cantando “London London” em especial da Globo

Amigos, foi uma chuva, como diria o Nelson Rodrigues, de 5º ato do Rigoletto, um dilúvio de Noé, só que sem a Arca. E sem Arca em Brasília, meu chapa, o Brasiliense naufraga. Daí a confusão em Brasília inteira ontem, com carros parados em enchentes no meio do asfalto, falta de energia e engarrafamento monstro por toda parte. Para relaxar, coloquei no som do carro um clássico do rock nacional, o disco ao vivo do RPM gravado em 1986 no Centro de Convenções do Anhembi. O pau comendo lá fora e eu ouvindo as meninas se escabelando por causa do Paulo Ricardo e sua turma.

O que me fez viajar no tempo e me lembrar do tempo em que era pré-adolescente e ficava vendo uma prima minha do interior se escabelar por causa do Paulo Ricardo e as músicas do RPM, que na época estavam no auge da carreira, com milhões de discos vendidos e assédio hediondo da imprensa em cima.

Um dia, ela chegou na casa da minha avó onde morava com esse disco ao vivo debaixo do braço e me apaixonei também pelo Paulo Ricardo, mas dele cantando London London do Caetano Veloso. Simplesmente um sundae.

Assim, lá estava eu, atravessando o Plano Piloto rumo a Águas Claras, debaixo de um temporal de cinema ao som do RPM e me lembrando de tudo isso, me dando conta de que o álbum que deu origem a essa apresentação ao vivo e mítica gravação do disco no Anhembi completa este ano 30 anos de estrada. Gravado um ano depois, o disco ao vivo vendeu na época 2,7 milhões, um recorde inédito até então.

“Com o RPM o rock nacional chega à maioridade sem deixar de ser adolescente”, diz Sérgio Chapelin na abertura do Globo Repórter de 1986.

Com produção assinada por Ney Matogrosso, o show trazia no set list quatro registros inéditos, dois deles covers formidáveis como a já citada London London e uma versão maneira de Flores astrais, sucesso do segundo disco dos Secos e Molhados com arranjo futurista maneiro. Da fornada autoral, a instrumental Naja e Alvorada voraz. Confesso que nos meus tempos de pré-adolescente a música Naja era bem mais interessante.

Na vibrante Rádio pirata, derradeira faixa do disco ao vivo que dá título ao álbum, um medley contagiante de Light my fire, The Doors. “Come on baby, light my fire”, grita Paulo Ricardo, esbanjando charme e mandado a fria e chata chuva que me vilipendia no caminho de casa para o espaço. “Toquem o meu coração/Façam a revolução”, continua.

Na crista da onda, sex symbol demolidor, Paulo Ricardo teve seu rosto estampado em todas as capas do país, foi atração em vários programas de televisão e rádio, protagonista, junto com sua banda, de um documentário francês, além de dono do coração da paquita Luciana Vendramini. Mas para mim, a imagem mais marcante do cantor é dele cantando London London ao lado de Caetano Veloso num especial da Rede Globo de 1986. Bem à vontade ao lado do mestre, o cara arrasa. A troca de olhares entre os dois artistas no Teatro Fênix é algo bonito de se ver e mexeu comigo. Eu tinha dez anos e até hoje lembro desse momento com grande ternura.

Com essas nostálgicas memórias sonoroas minha volta para casa do trabalho debaixo de forte chuva foi bem mais divertida.

* Este texto foi escrito ao som de: Rádio Pirata ao Vivo (RPM – 1986)

RPM ao vivo

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