Bye bye Brasil (1979)

José Wilker e Fábio Jr., respectivamente Lorde Byron e o sanfoneiro Ciço

José Wilker e Fábio Jr., respectivamente na trama Lorde Byron e o sanfoneiro Ciço

Bye bye Brasil não é apenas o melhor filme de Cacá Diegues, com um dos melhores do cinema nacional de todos os tempos. Eu acho e ponto. De mais a mais, o diretor alagoano de alma carioca é daqueles homens da cultura brasileira que não fica o tempo todo chorando pitangas, reclamando, mas faz. De modo que ele traz no currículo quase 20 longas-metragens, alguns deles peças importante da nossa cinematografia. Essa pérola que revi outro dia no Canal Brasil é uma delas.

Realizado logo após o singelo e melancólico, Chuvas de verão (1978), o filme é uma ode ao Brasil profundo que cada vez mais vemos se perder diante de nossos olhos pelo agressivo avanço do progresso. Já era assim naqueles tempos, o que dizer nos dias de hoje.

Narra a trajetória de uma trupe mambembe de artistas que cruza o país em busca de reconhecimento artístico, enfim, de um lugar ao sol, seja no interior agreste de uma dessas cidades do Nordeste ou no coração da selva amazônica. Bye bye Brasil 8Em sua autobiografia lançada recentemente, o cineasta conta que a ideia era escrever um filme sobre “um homem em busca de seu universo original”. O ponto de partida para essa premissa existencial seria o seu incômodo com a invasão do radinho transistor pelo país afora e com a televisão em rede nacional, segundo ele, uma ameaça a valores preciosos humanos como nossa identidade, nossas raízes e nacionalidade.

“A troca de informações e influências, que se acelerava em todo o mundo, era vista como uma ameaça à nossa personalidade, uma ameaça à nação”, escreve.

Uma das cenas emblemáticas do filme que cogitou se chamar Por todos os caminhos do mundo e Todos cantam sua terra, é quando o personagem de José Wilker chega a Altamira e começa a prestar atenção se há a existência no lugar de “espinhas de peixes”, vulgo para antenas de televisão. Sim, porque se tem televisão na praça, não há espaço para o espetáculo da caravana Rolidei, liderada por Lorde Cygano e a sensual Salomé, ambos vivido divinamente por José Wilker e Betty Faria. Fábio Jr. em início de carreira, é o sanfoneiro sonhador Ciço.

Cruzando o país, eles vão descobrindo um Brasil carente e ainda à margem do sistema e que sofre com as mazelas de sempre, mas, como esses artistas mambembes, vão se virando como pode e do jeito que dá. “Será que Deus está distraído ou não gosta do povo deste lugar?”, reclama um sertanejo, clamando por chuva no sertão. “Salomé, eu não queria, mas vamos precisar de dinheiro para sair deste lugar”, diz cafajestemente, Lorde Cygano, insinuando que ela realmente vai ter que dá, para dá um jeito na situação deles após uma malfadada noite de apostas.

Realista e pragmático, Cacá Diegues, como homem de cultura que é e intelectual crítico da realidade que vive, traça aqui neste road movie bem original e trilha sonora bacana, um panorama melancólico, pessimista e sem perspectiva dos anos finais da ditadura militar. A desolação grandiosa de uma transamazônica inacabada surge como metáfora contundente desse tempo. A chegada dos sertanejos a Brasília, na condição de muitos retirantes é outra.

Mas como em quase todos os filmes do diretor, traz um final super e hiper realista e exagerado, como que a mostrar que, apesar de tudo, as coisas podem melhorar. Será?

* Este texto foi escrito ao som de: Chico Buarque (1980) Chico 1980

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s